Paulo Coelho a respeito da Guerra do Iraque

Publicado: março 26, 2003 em Política, Reflexões

Sim Gabriel, sua opinião pode mudar, caso o argumento seja apresentado. Continuo não achando os livros bons, mas como poder chamar alguém que escreve coisas do tipo de fator alienante? Desculpa, eu peço. E parabéns pelo texto.


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Obrigado, presidente BushObrigado, grande líder George W. Bush.Obrigado por mostrar a todos o perigo que Saddam Hussein representa. Talvez muito de nós tivéssemos esquecido que ele utilizou armas químicas contra seu povo, contra os curdos, contra os iranianos. Hussein é um ditador sanguinário, uma das mais claras expressões do mal no dia de hoje.Entretanto, esta não é a única razão pela qual estou lhe agradecendo. Nos dois primeiros meses deste ano, o senhor foi capaz de mostrar muitas coisas importantes ao mundo e, por isso, merece minha gratidão. Assim, recordando um poema que aprendi na infância, quero lhe dizer obrigado.

Obrigado por mostrar a todos que o povo turco e seu parlamento não estão a venda, nem por US$ 26 bilhões.

Obrigado por revelar ao mundo o gigantesco abismo que existe entre a decisão dos governantes e os desejos do povo. Por deixar claro que tanto Jose Maria Aznar como Tony Blair não dão a mínima importância e não têm nenhum respeito pelos votos que receberam. Aznar é capaz de ignorar que 90% dos espanhóis estão contra a guerra e Blair não se importa com a maior manifestação pública na Inglaterra nestes 30 anos mais recentes.

Obrigado porque sua perseverança forçou Tony Blair a ir ao parlamento inglês com um dossiê escrito por um estudante há dez anos, e apresentar isso como “provas contundentes recolhidas pelo serviço secreto britânico”.

Obrigado por enviar Colin Powell ao Conselho de Segurança da ONU com provas e fotos, permitindo que, uma semana mais tarde, as mesmas fossem publicamente contestadas por Hans Blix, o inspetor responsável pelo desarmamento do Iraque.

Obrigado porque sua posição fez com que o ministro de Relações Exteriores da França, sr. Dominique de Villepin, em seu discurso contra a guerra, tivesse a honra de ser aplaudido no plenário — honra esta que, pelo que eu saiba, só tinha acontecido uma vez na história da ONU, por ocasião de um discurso de Nelson Mandela.

Obrigado porque, graças aos seus esforços pela guerra, pela primeira vez as nações árabes — geralmente divididas — foram unânimes em condenar uma invasão, durante o encontro no Cairo, na última semana de fevereiro.

Obrigado porque, graças à sua retórica afirmando que “a ONU tem uma chance de mostrar sua relevância”, mesmo os países mais relutantes terminaram tomando uma posição contra um ataque ao Iraque.

Obrigado por sua política exterior ter feito o ministro de Relações Exteriores da Inglaterra, Jack Straw, declarar em pleno século XXI que “uma guerra pode ter justificativas morais” — e ao declarar isto, perder toda a sua credibilidade.

Obrigado por tentar dividir uma Europa que luta pela sua unificação; isso foi um alerta que não será ignorado.

Obrigado por ter conseguido o que poucos conseguiram neste século: unir milhões de pessoas, em todos os continentes, lutando pela mesma idéia — embora esta idéia seja oposta à sua.

Obrigado por nos fazer de novo sentir que, mesmo que nossas palavras não sejam ouvidas, elas pelo menos são pronunciadas — e isso nos dará mais força no futuro.

Obrigado por nos ignorar, por marginalizar todos aqueles que tomaram uma atitude contra sua decisão, pois é dos excluídos o futuro da Terra.

Obrigado porque, sem o senhor, não teríamos conhecido nossa capacidade de mobilização. Talvez ela não sirva para nada no presente, mas seguramente será útil mais adiante.

Agora que os tambores da guerra parecem soar de maneira irreversível, quero fazer minhas as palavras de um antigo rei europeu para um invasor: “Que sua manhã seja linda, que o sol brilhe nas armaduras de seus soldados — porque durante a tarde eu o derrotarei.”

Obrigado por permitir que todos nós, um exército de anônimos que passeiam pelas ruas tentando parar um processo já em marcha, tomemos conhecimento do que é a sensação de impotência, aprendamos a lidar com ela e transformá-la. Portanto, aproveite sua manhã e o que ela ainda pode trazer de glória.

Obrigado porque não nos escutastes, e não nos levaste a sério. Pois saiba que nós o escutamos, e não esqueceremos suas palavras.

Obrigado, grande líder George W. Bush.

Muito obrigado.

Paulo Coelho

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