Arquivo de maio, 2003

Olhares que atravessam o coração

Publicado: maio 30, 2003 em Reflexões

Eu já fiz muitas perguntas com os olhos. Já perguntei se estava tudo bem, já perguntei se iria ceder lugar para a senhora, já perguntei se queria cola. Já perguntei até se era sincero o sentimento.Também já dei muitas respostas com o olhar. Já disse desculpa, já disse ” conte comigo “, já censurei atitudes, já mostrei tanto apoio, já me declarei, e também já pedi um beijo.

Com o olhar, uma pessoa, sentada ao meu lado, se perguntou porque eu vestia um tênis vermelho, enquanto suas havaianas estavam rasgadas. Também se perguntou a respeito da minha blusa, enquanto ele se encolhia de frio. Ele olhou nos meus olhos e perguntou porque eu posso ter um discman, enquanto ele não tinha o que comer.
Bem, por um momento eu também me perguntei. Em seguida, tirei os chocolates que tinha na bolsa. Pelo menos aquela noite essa noite ele comeu Diamante Negro e teve a oportunidade de trocar algumas palavras com alguém.
Quando isso irá se repetir, não sei, nem sei se vou ter chocolate da próxima vez. Mas isso não significa que eu deva esperar. Se eu estudo, se eu escrevo, se eu vivo, é por acreditar que as pessoas merecem mais do que tem recebido.

Anúncios

Eu sei!

Publicado: maio 25, 2003 em Olhar para dentro

Eu sei onde estou. Eu sei quem sou. Eu sei o que me faz bem, sei o que me faz mal. Algumas vezes, sou até capaz de controlar meus sentimentos. Em outras, o frio faz com que me sinta pequeno demais.Quando o que se vive não condiz exatamente com o que se gostaria de viver.
Quando os pensamentos não são escolhidos por você.

E se você tivesse um tesouro que julgasse muito valioso, e quisesse reparti-lo, mas ninguém desse importância a ele?
E se você tivesse um lugar muito especial, mas nunca conseguisse levar alguém até ele?
E se houvesse uma música que sempre, mas sempre mesmo, te remetesse aquelas lembranças, aqueles sentimentos, mas trouxesse junto com eles a consciência de que escolhas foram feitas, e não vão voltar?
Pois é, a existência de certas coisas, tão confusas, me lembram do que é essencial, mas também me roubam a paz.

De vez em quando, mas bem de vez em quando, eu me sinto alheio.
Hoje eu expliquei um dos únicos sentimentos com os quais não sei lidar.
—-

” Um barco sem porto, sem rumo, sem vela, cavalo sem cela. Um bicho solto, um cão sem dono, um menino, um bandido. As vezes me preservo, noutras suicido ”
( Zeca Baleiro )
E, dentre os seus sentimentos, quais se devem conservar, e a que preço?

Não vou me adaptar

Publicado: maio 19, 2003 em Política

” Não vou me adaptar… ”
Palavra ordem do dia: Indignação

É engraçado como tantas pessoas perdem a capacidade de se indignar com o tempo. Como aceitam situações que deveriam ser inadmissíveis, como deixam que roubem-lhe lentamente o oxigênio, para ir agonizando, de maneira lenta e gradual, deixando sua vida se esvair nas pequenas coisas cotidianas que roubam sua qualidade de vida.

Eu estudo em uma escola particular, porque uma escola pública não seria capaz de me transmitir o mínimo e fundamental para a minha formação pessoal, além de ter valores muito discernidos pelo contexto social que nunca é bem trabalhado. Além da escola particular, também faço pré vestibular Anglo, pois sei que sem o mesmo eu seria incapaz de entrar numa boa universidade pública ( eu disse pública? pois eu já pago colégio particular e cursinho para ter ao mínimo uma chance ao acesso ).
Sendo assim, também pago ( indiretamente, já que não sou assalariado ) pelo meu direito constitucional ( e por tanto, teoricamente, incontestável ) direito de ir e vir, por metrô+ônibus. Diga-se de passagem, o preço do mesmo não é nada a se desconsiderar num orçamento familiar. Hoje descobri ( pela manhã, no ponto de ônibus ) que a linha de ônibus que percorre o meu trajeto deixou de existir. Fiquei com a cara no chão. Pensei que seria criada alguma linha alternativa, mas não foi. Peguei uma segunda opção, e cheguei realmente atrasado a aula. Na volta, 30 minutos numa fila horrível, e depois um carro ocupado com o triplo da sua capacidade máxima.

Bem, eu gostaria de expressar aqui a minha profunda decepção com o governo petista, tanto a nível municipal quanto federal. O partido está mostrando realmente que é incapaz de mudar as estruturas dessa sociedade de privilégios que vivemos, e está agindo condizentemente a políticas que abominamos, a privatização do ensino, a precariedade do transporte, e tantas outras questões sociais, justamente as que esperávamos que ele mudasse se estivesse no poder.

O tempo de credibilidade acabou, para mim já se mostrou claro o real objetivo do governo Lula: perpetuar uma sociedade onde o capital financeiro esteja acima da situação humana, continuando submisso as políticas de fiscalização externa e sufocamento da economia. Preciso de uma nova perspectiva política, alternativa ao PT.

Eu peço a todos que me lêem que não aceitem as coisas prontas diante de si, se discordarem de seu resultado. Questionem essas atitudes impostas, e pensem a respeito das possibilidades, deixando assim de exigir apenas o mínimo e imprescindível. Muito obrigado 🙂

Cade meu tempo?

Publicado: maio 19, 2003 em Olhar para dentro

Tempo, tempo, tempo, mano velho…Bem, dizem por aí que existe tempo pra tudo. Tempo de aprender, tempo de chorar, tempo de amar, tempo de sofrer. Eu acho que agora o meu tempo é de estudar, estudar bastante, e, devo confessar, não é das coisas que mais me atraem.

No entanto, pela primeira vez da minha vida, me falta tempo. Tempo pras coisas mais básicas, tempo pra dar os telefonemas que quero, tempo pra ler aquele livro que gosto tanto, tempo pra tocar violão, e até mesmo, por mais estranho que possa parecer, tempo pra pensar.
Isso faz com que eu admire ainda mais o meu tempo livre, e tenha vontade de fazer tudo o que não me é permitido durante a semana. Isso faz com que eu necessite de uma certa ” densidade ” que nunca estive acostumado, e portanto não crei condições pra que fosse possível. Isso me dá a consciência de o quanto o tempo é algo relativo a nós, e não sei se voltarei a fazer as mesmas coisas de antes, depois de todo esse processo.

Mas bem, eu só quero deixar aqui expressa a minha opinião de que, para se valorizar o tempo que tem, é mais do que necessário dispo-lo em algum projeto que faça com que você tenha que abdicar a outras coisas, que se tornam praticamente inconciliáveis.
——————–
Contexto!

Tive uma aula que me fez refletir um pouco sobre quem faz o uso correto da linguagem.

A linguagem, como qualquer outra forma de expressão criada pelo homem, existe para facilitar a comunicação entre os seres humanos.
Sendo assim, nós devemos, sempre que possível, nos adaptar ao ambiente que estamos, e falar de uma forma que torne fácil a compreensão alheia.
Acredito que, por mais que haja sofisticação no texto, isso não significa achar substantivos absurdos, pronomes de tratamento surrealistas, verbos em mesóclices obscenas, nem nada do tipo. Acho que a pessoa que se expressa bem sabe encontrar as palavras num contexto certo. E isso vale pra um psicólogo, que quer criar um laço que permita o contato com o paciente, para o advogado, que tem que traduzir o insano vocabulário jurídico a seu cliente, para um amigo falando com outro, para um amante em seu caloroso ato, para uma palavra amiga a um menor abandonado.
Então, fica aqui a minha admiração a essas pessoas que, mais do que falar de maneira limpa e conhecer milhões de recursos dos mais improváveis, fazem com que suas palavras cheguem até as outras de maneira didática, compartilhando pensamentos, e eliminando as linhas de exclusão que essa gramática conservadora gera entre todos…

Gosto de andar a noite. Parece que fujo do tumulto dessa cidade, parece que o cinza ganha um tom abstrato que nos permite ver as coisas de uma maneira diferente. Gostei de ver aquelas crianças brincando na praça de casa, gostei da placa que impede a passagem de carro aos domingos ” Proibida a entrada de carros, Rua de Lazer Familiar “. Nhah, eu acho que a transformação da sociedade deveria começar pela solidariedade de bairro. Minha mãe trabalha isso muito mais do que eu… alias, isso tem feito com que eu reflita a respeito da minha relativa timidez, causada por uma insegurança bem específica a determinadas relações. Não é medo de ser julgado, é medo de ser mal compreendido.
Bem, ao menos isso não me impede de lutar pelos meus direitos e os das outras pessoas, e espero que continue assim :)Taí uma música muito bonita. Desconexa por várias vezes, mas com uma melodia e sentimento muito densos, fica aqui a minha recomendação:

Um Girassol da Cor de Seus Cabelos!

Vento solar e estrelas do mar
A terra azul da cor de seu vestido
Vento solar e estrelas do mar
Você ainda quer morar comigo?

Se eu cantar não chore não
É só poesia
Eu só preciso ter você
Por mais um dia
Ainda gosto de dançar, bom dia
Como vai você?

Sol, girassol, verde, vento solar
Você ainda quer dançar comigo?
Vento solar e estrelas do mar
Um girassol da cor de seu cabelo

Se eu morrer não chore não
É só a lua
É seu vestido cor de mar, a filha nua
Ainda moro nessa mesma rua

Como vai você? Você vem, ou será que é tarde demais?
( O meu pensamento tem a cor de seu vestido
Ou um girassol que tem a cor de seu cabelo! )
————–

É muito importante respeitar opiniões alheias, mas isso não faz com que seja correto se abster de tentar mostrar caminhos mais amplos a algumas pessoas com visões mais restritas da realidade. Sempre que puderes, tente mostrar pontos de vista diferente, tente mostrar realidades mais sensíveis e humanas, e tente dizer que existe algo mais. Assim faremos o mundo crescer…

Mãe significa

Publicado: maio 11, 2003 em Declarações, Olhar para dentro

Mães.
Mãe pra mim significa vida. Claro que a participação do pai é fundamental no processo, mas é dentro da mãe que temos a transformação de simples células eucarióticas em, veja bem, seres humanos!
A mãe é grande parte dos nossos maiores alicerces. Por mais que não recorra ao seu colo tantas vezes quanto já o fiz, alegra-me saber que poderia fazer, caso necessita-se. É da minha mãe que recebi a melhor educação que pude ter, uma educação que nenhum livro ou professor jamais seria capaz de dar, a educação da solidariedade. Ela me ensinou como dividir, e me disse também quais eram os meus direitos. Também ela nunca colocou em dúvida seu amor por mim, servindo tantas vezes como um porto seguro num mundo onde encontrei tantas vezes egoísmo e amargura. Admiro muito minha mãe, e me orgulho de poder dizer isso. Ela sempre foi a pessoa mais importante da minha vida.
P.S.: Estou falando da minha mãe e da minha avó :)Queria eu poder oferecer homenagem digna, mas incapaz, vai uma já feita

Homenagem a minha mãe, a minha avó, a Fabi, e todas as outras mães desse mundo 🙂
Para minha querida mãe…

” Mãe é a Amiga mais fiel que podemos ter quando as provações da vida, terríveis e inesperadas, despencam sobre nós. Quando a adversidade toma o lugar da prosperidade; quanto os amigos que se rejubilam conosco na alegria, abandonam-nos quando os problemas se acumulam. ela permanece ao nosso lado e se esforça com seus bondosos preceitos e conselhos pra dissipar as nuuvenns de escuridão e trazer de volta a paz aos nossos corações.
A Mãe ama o filho da mais divina forma, não quando o cerca de todos os confortos e se antecipa a todos os desejos, mas quando resolutamente dele exige os mais altos padrões dos quais lhe são possíveis

Mães são anjos terrenos, cujo sopro é capaz de amenizar desde as dores físicas até os maiores níveis de anseios e medos. “

Escolhas

Publicado: maio 6, 2003 em Olhar para dentro, Reflexões

Depois de muitooo tempo, o sonho.
Foram sintomas de presságios, mas como não acredito em presságios, fico com a possibilidade de ser um grito que conseguiu atravessar meu subconsciente, mesmo que apenas em um curto e confuso intervalo de tempo..
O que sei eu do futuro? Nada. Mas não é isso que me aflinge…
O que me preocupa é a inconsistência dos meus desejos. Isso impede que exista uma auto-confiança muito fundamental nesse ano que tem tudo pra ser o mais difícil de todos.
Eu preciso saber se meu futuro é nessa cidade cinza ou se é na ilha que me é tão maravilhosa. Eu preciso saber se o que há de cinza esta, na verdade, dentro de mim, e também se a ilha o é tão maravilhosa por estar tão distante.
Eu preciso saber se vou tentar psicologia, desejo antigo de poder chegar até as pessoas, compreendê-las e mostrá-las que podem ter o caminho para serem mais felizes, formarem uma sociedade diferente, com visões alternativas ao senso comum consumista. Ou preciso saber se vou prestar direito, e me munir com mais armas para uma participação ativa na organização da sociedade, procurando justiça social e o respeito a nossa tão querida constituição.
(Claro que em ambos os casos minha pretenção foi incapaz de admitir que por algum golpe trágico do destino eu possa não ter a chance de conciliar meu trabalho com projeto social )
Enfim, quero saber até quando minha serenidade vai conseguir sustentar toda a minha indecisão.
—Aproveitando minha divagação altamente introspectiva, gostaria de colocar-lhes uma questão: o quanto do seu emprego é importante para a sociedade, o quanto ele proporciona bem estar a si e as outras pessoas?
Claro que não é obrigação, e infelizmente hoje em dia chega a ser privilégio, trabalhar em uma área que seja exatamente aquela na qual você gostaria atuar. No entanto, não podemos nos satisfazer e deixar subjulgar, ou a gente muda o mundo, ou esperamos que ele nos mude, nos molde. Temos personalidade, e não é isso o que queremos 😉