Arquivo de maio, 2004

Me acho tão adolescente.
Aconteceu, de novo. Na primeira vez, havia sido com Forgiven. Eu havia encontrado toda a minha adolescência ali, escancarada nas mentiras que eu fiz questão de procurar, só pra depois descartar, e lutar contra o vazio dentro de mim. Logo após, Uninvited. Todas as possibilidades que teríamos, se houvessem outras circunstâncias, se houvessem outras possibilidades. A prova de que o amor, seja ele como for, não independe do mundo ao seu redor para a plena concretização. Depois, foi Hands Clean. A pessoa que me fez acreditar, que cultivou o sentimento mais parecido com fé ( ausente desde sempre na minha vida ), que me fez amar, confiar nas minhas poesias, e depois me abandonou, tudo isso estava escrito nessa letra.
E agora, Everything.
Ao ouvir essas músicas da Alanis, que tanto dizem respeito a mim, eu revivo, de certa maneira, antigos sentimentos. E lembrar sentimentos nunca é vão.Acho que isso faz parte do processo humano. Não acredito no acaso para o reaparecimento dos sentimentos. Não acredito em tristeza e felicidade em que não hajam motivos, embora tenha encontrado cotidianos que possam ser caracterizados como plausíveis para esses extremos.
Portanto, sou da opinião de que devemos conhecer sim o que se passa dentro de nós, e acredito que podemos interferir, em grande parte, para nos fazer pessoas melhores, mais realizadas e mais úteis para as coisas nas quais acreditamos dever colaborar.
Porém, lembrar não é reviver. Mas algumas lembranças ainda deixam imagens tão reais, e sentir novamente pelos mesmos motivos é realmente parecido com reviver.

Quem não quer ser livre? Poder fazer o que bem entender, da maneira e no tempo em que bem entender. Ah, quanto prazer! Sem limites, sem satisfações. A sensanção de plenitude da conquista, a busca pelo novo, o inesperado, as surpresas que nos provam que realmente um dia é diferente do outro. Como seria se vivessemos em um sonho, como seria se fossemos diretores dos nossos sonhos?Bem, eu descobri que, de certa forma, existem limites para a minha liberdade. E que eu devo ter muito medo da liberdade total, irrestrita.
Só somos livres, de verdade, a medida em que não mantemos nenhum vínculo. Em que nada possa de fato condicionar e influenciar nossa opinião, quando não há nada que nos impeça de satisfazer determinado desejo. Mas não seria também o próprio desejo impecilho pra liberdade? Ora, se temos desejos, inata é a vontade ( mesmo reprimida ) de satisfazê-los. E o quanto essa vontade influi na nossa maneira de agir e pensar?

Então a liberdade, como disse Buda, é a abstenção de todos os desejos. Eles condicionam a nossa independência diante do mundo. E todas as pessoas livres, e que desejam viver, devem ser independentes! Mas rico sou eu, que preciso das pessoas ao meu redor, que preciso dos meus desejos, que preciso dos meus ideais, e que tenho os olhos abertos para as coisas que acontecem ao meu redor. Não que receba tudo de maneira passiva, muito pelo contrário, o olhar crítico faz parte do meu condicionamento diante da minha ideologia de transformação.

Portanto, eu abdico de parte da minha liberdade, para que assim eu não seja paradoxal, para que assim eu possa ver sentido em continuar vivendo e lutando pelas coisas em que acredito valer a pena…

Mudanças

Publicado: maio 12, 2004 em Olhar para dentro

Mudança!
Bem, essa semana eu me mudei. Depois de tantos meses de procura, expectativa…
Agora tenho um quarto que é só meu. Pequeno, apertado, mas onde cabe o que me é essencial, ao menos no aspecto material cotidiano: meu computador, meu som, alguns livros, meu violão e minha guitarra. Do que mais precisaria? :)Quanto ao aspecto emotivo, eu acho que todo nós precisamos do nosso espaço, um lugar onde possamos nos sentir ‘soberanos’ estabelecer nossas próprias regras, limites e organização.
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Achei muitas coisas perdidas. Percebi que não consigo me desfazer de algumas cartas, que na minha vida já cruzei com muitas pessoas especiais, que mantenho contato com menos dessas pessoas do que gostaria, e que o tempo e a distância já me privaram de algumas possibilidades que poderiam ter sido interessantes.
Achei também uma foto. Eu lembro que, dessa pessoa, havia uma carta e uma foto, e eu sinceramente preferiria ter achado a carta. Não sei porque, mas as palavras, as vezes, desenham melhor do que qualquer pincel uma determinada cena de nossa vida.

Percebi que tenho saudades, mas que ela é muito menos atroz do que fora nos anos anteriores.

Mudança é isso. Tempo de descobrir o que estava perdido, de jogar fora o que estava presente, mas sem fazer sentido algum, de organizar espaços, de perceber algumas necessidades que antes estavam camufladas, de descobrir limites, de fazer possível o que era julgado impossível.
Por isso eu estou tentando lidar da maneira mais construtiva possível com essa história de mudar. Escolher pelo novo nem sempre é um processo reversível. E mesmo que fosse, eu ainda assim não desejaria voltar atrás.

Deprimente

Publicado: maio 2, 2004 em Política

Primeiro de maio não é dia de festa.
Não é dia de Sandy & Junior. Tão menos se fosse só Gilberto Gil.
O dia do trabalhador só existe porque existe uma luta histórica por parte da classe trabalhadora, que acreditou que estando unida tinha melhores chances para reinvidicar melhores condições de trabalho e de vida. O dia só existe porque o povo decidiu que, gritando numa mesma hora e numa mesma voz, seu grito ecoaria de tal maneira que não poderia ser ignorado.
Mas não é o grito o que ouvimos! Foi música! Descomprometida com a realidade, descomprometida socialmente para com aqueles que estão a ouvir. É uma música que aliena, que não diz respeito ao que realmente é pertinente a esse dia.Porque nem tudo pode ser festa! E o que os trabalhadores tem a comemorar, hoje? Não tem! Aumento de 20 reais no salário mínimo? Não, isso não é motivo pra cantar, ao menos não aquelas músicas! Tão menos é motivo pra cantar a reforma trabalhista tal como está sendo propostas, com a extinção de diveros direitos que são conquistas históricas.

Em suma, fica aqui a minha indignação com o primeiro de maio que ajudou a fazer da massa trabalhadora uma classe ainda mais alienada, e que conseguiu desvirtuar grande parte do sentido desse dia que deveria representar a luta dessa classe.