Das Vantagens de Ser Bobo

Publicado: setembro 15, 2004 em Reflexões

DAS VANTAGENS DE SER BOBO – Clarice Lispector

O bobo, por não se ocupar com ambições, tem tempo para ver, ouvir e tocar o mundo.
O bobo é capaz de ficar sentado quase sem se mexer por duas horas. Se perguntado por que não faz alguma coisa, responde: “Estou fazendo. Estou pensando.”
Ser bobo às vezes oferece um mundo de saída porque os espertos só se lembram de sair por meio da esperteza, e o bobo tem originalidade, espontaneamente lhe vem a idéia.
O bobo tem oportunidade de ver coisas que os espertos não vêem.
Os espertos estão sempre tão atentos às espertezas alheias que se descontraem diante dos bobos, e estes os vêem como simples pessoas humanas.
O bobo ganha utilidade e sabedoria para viver.
O bobo nunca parece ter tido vez. No entanto, muitas vezes, o bobo é um Dostoievski.
Há desvantagem, obviamente. Uma boba, por exemplo, confiou na palavra de um desconhecido para a compra de um ar refrigerado de segunda mão: ele disse que o aparelho era novo, praticamente sem uso porque se mudara para a Gávea onde é fresco. Vai a boba e compra o aparelho sem vê-lo sequer. Resultado: não funciona. Chamado um técnico, a opinião deste era de que o aparelho estava tão estragado que o conserto seria caríssimo: mais valia comprar outro.
Mas, em contrapartida, a vantagem de ser bobo é ter boa-fé, não desconfiar, e portanto estar tranqüilo. Enquanto o esperto não dorme à noite com medo de ser ludibriado.
O esperto vence com úlcera no estômago. O bobo não percebe que venceu.
Aviso: não confundir bobos com burros. Desvantagem: pode receber uma punhalada de quem menos espera. É uma das tristezas que o bobo não prevê. César terminou dizendo a célebre frase: “Até tu, Brutus?”
Bobo não reclama. Em compensação, como exclama!
Os bobos, com todas as suas palhaçadas, devem estar todos no céu.
Se Cristo tivesse sido esperto não teria morrido na cruz.
O bobo é sempre tão simpático que há espertos que se fazem passar por bobos.
Ser bobo é uma criatividade e, como toda criação, é difícil. Por isso é que os espertos não conseguem passar por bobos. Os espertos ganham dos outros. Em compensação os bobos ganham a vida.
Bem-aventurados os bobos porque sabem sem que ninguém desconfie. Aliás não se importam que saibam que eles sabem.
Há lugares que facilitam mais as pessoas serem bobas (não confundir bobo com burro, com tolo, com fútil). Minas Gerais, por exemplo, facilita ser bobo. Ah, quantos perdem por não nascer em Minas!
Bobo é Chagall, que põe vaca no espaço, voando por cima das casas.
É quase impossível evitar excesso de amor que o bobo provoca. É que só o bobo é capaz de excesso de amor. E só o amor faz o bobo

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Sem dúvida uma das maiores ( senão a maior ) escritora brasileira de todos os tempos. Se uma pessoa consegue nos convencer de que a alma do ser humano é profunda, tão e somente com palavras, essa pessoa é Clarice Lispector.

E quanto a ser bobo? Será que vale a pena?
E quem disse que o mundo é dos espertos?
Os espertos, que querem conquistar o mundo com sua sagacidade, podem vencer, no sentido de que usam a força para atingir seus objetivos.
Os bobos ganham assim, com esse jeito espontâneo de ser, que por sí só já conquista grande parte de seus objetivos.

Ser esperto é maquinar o tempo todo, ser bobo é encontrar no cotidiano coisas que lhe possam fazer rir.

Ser esperto é entender o mundo pra tirar proveito dele. Ser bobo é sentir o mundo, sentir-se como parte do mundo e, integrado a ele, procurar os caminhos que permitam que todas as pessoas possam sorrir.

Ser esperto é tomar mil preucações, ter infinitas respostas na ponta da língua, ser bobo é viver assim, intensamente, respeitando os riscos, mas não inventando-os.

Claro que ser bobo é mais perigoso! O coração do bobo certamente estará mais aberto, suas experiências serão muito mais intensas, e nem tudo o que há no mundo faz bem. E o bobo, por estar tão receptivo, as vezes acaba tendo que lidar com coisas bem complicadas dentro de si, coisas que o esperto nunca sonhou existirem, inclusive.

Portanto, é isso que penso: escolhemos, a todo momento, ser bobo ou esperto. Tentamos escolher como lidar com o mundo que nos é apresentado a todo momento, que dá trocentos motivos pra ficarmos tristes, que dá tantos motivos pra sermos felizes. Mas que fundamentalmente nos exige posturas, decisões e atitudes, que resultarão em transformações, ao nosso redor, e dentro de nós. E que sejamos conscientes então de nossa bobeira, pra que possamos cultivar o que há de melhor nisso…

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