Praça da Sé, São Paulo

Publicado: fevereiro 14, 2007 em Política

15:15
– Ai, filho da puta, ai…
Uma mulher deitada no chão. Ou um homem. É difícil de discernir, cabelo muito curto, meio branco. Rosto cheio de cicatrizes, sim. Mas, diante da angústia e sofrimento de todas as lágrimas, só consegui reparar a dor. Aparentava uns 60 anos, mas é provável que tivesse 40. Ou mesmo 30.Um guarda da Polícia Metropolitana está do lado dessa pessoa. A uns dois metros, outro rapaz no chão, com um cara esfregando um pano em seu peito. Um carro de polícia chegando, devagar, abrindo espaço entre o amontoado de gente que já se formava.

O guarda tira algo do bolso, e circula a pessoa, até estar de frente a ela, que está gritando e praguejando. Mira o spray de pimenta a menos de 15 centímetros do seu rosto, e segura o botão que libera o gás por mais de 5 segundos, tempo em que eu, muito inseguro, dou uns três passos a frente, e acontece um diálogo parecido com esse:

– Porra, o cara tá no chão, pra que isso?
– Sai daqui doutor, sai daqui senão te prendo por desacato

Talvez eu fosse preso mesmo, porque não sai. Não consegui articular argumentos. Se eu conseguisse manter minha racionalidade diria sobre a ilegalidade daquela ação, que o cara poderia ser denunciado, que tinha umas 50 testemunhas de que ele estava torturando uma vítima indefesa e subjulgada. Poderia ter dito que eu não tinha medo, que ele é quem deveria se envergonhar por estar fazendo tamanha atrocidade assim, na frente de todos, sem o mínimo de pudor.
Diria também que é uma vergonha que a autoridade se porte assim.

Mas eu tinha uma carta na manga, e ele nunca me prenderia. A minha condição social, que era de certa forma mascarada pelo ‘uniforme’ de estagiário de Direito que eu uso. A fantasia de advogado que se manifestava através da pasta com cópias de decisões judiciais que eu levava comigo transmitiu a ele, ao que parece, uma proteção intransponível que pelo menos ali, na frente de todo mundo, ele não estava disposto a atacar.

E eu me senti imundo. Os pobres mendigos da Praça da Sé são espancados e torturados com sprays de pimenta por gritarem (de dor, indignação, sei lá!), e eu sou julgado pela merda de roupa que eu uso, e não por qualquer argumento coerente que eu tenha sido capaz de usar.

O povo todo fica falando sobre violência, sobre diminuir a maioridade penal, rever legislação, dar penas mais duras. Mas será que ninguém enxerga que ESSE É O MUNDO QUE NÓS CONSTRUÍMOS, e que não é o Direito que vai mudá-lo, mas sim as transformações sociais que só vão acontecer quando formos menos egoístas e mesquinhos, e pararmos de olhar única e exclusivamente pro nosso próprio rabo?

Estou triste, e, mais do que triste, machucado. Ferido por meus próprios medos e incapacidades, infeliz por conviver com pessoas tão pequenas, e por saber que a realidade é essa que eu vi hoje, e que tão pouca gente se empenha em mudá-la.

Alias… o quanto eu tenho me empenhado?

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