Arquivo de julho, 2007

Diálogos

Publicado: julho 29, 2007 em Declarações, Reflexões

Desliguei o telefone, esperando que ele não ligasse de novo. Não sabia explicar muito bem, e a razão era simples: não havia motivo plausível. Não era isso que eu queria, de fato, mas era o que precisava.

Não havia entendido. Do céu ao inferno, apenas um segundo? Nada mais, depois de tanto amor? Nenhuma necessidade? Nenhuma possibilidade? E o pior de tudo: nenhuma esperança? Não fazia sentido, mas isso não era o pior: se fosse real, seria a subversão de tudo que me era verdadeiro. Seria dizer: esqueça tudo aquilo que você já disse sobre o amor, porque ele pode não ser bom. Como poderia ser justamente ela, a pessoa que eu tanto amei, que me ensinaria isso?

O amor pode não ser bom. Era algo que ele não estava preparado para aceitar.

Mas por que? Se eu sei que devo ficar com ele, e se eu o amo, por que preciso deixá-lo? Por que não posso mais vê-lo, sem que surja dentro de mim uma dor tão insuportável, e um sentimento de rejeição e traição a mim mesma? 

E eu achei por muito tempo que eu fosse o bode expiatório. Era um ciclo vicioso, sofriamos porque estávamos distantes, mas minha aproximação a feria mais, até que a ela pareceu que eu desisti de me aproximar, sentiu-se abandonada. E a mim pareceu que ela havia fechado a porta.

Será que erraram por tão pouco? Será que ela o chamou no instante em que estava distraído, e minutos depois já era tarde demais? Será tão comum que o desencontro de instantes se torne em uma distância intransponível?

Mas existem certas necessidades que não se explicam: apenas se impõem. E que eu só posso entender como a vontade de existir. Como a vontade de ser. E eu posso com a tristeza, eu posso com a solidão. Eu só não posso deixar de ser. Eu posso me desconstruir e reconstruir, mas eu não posso deixar de existir. Por mais que às vezes eu queira, não posso.

E agora o que eu preciso aprender é a aceitar um pouco mais.  Fazer o contrário é me aceitar enquanto algoz (por mais que inocente) da pessoa que amei.

Às vezes o que as pessoas precisam é de movimento. Às vezes o movimento é a única possibilidade de derrotar a inércia em que nos aprisionamos e é a única salvação para a nossa própria existência.

O amor, por si mesmo, não é nobre. Não precisa ser bom (e não digo que seja necessariamente ruim!). Ele é o que fazemos com ele. Como reagimos a ele, o que isso transforma dentro de nós e as atitudes que resultam dele.

Acontece muito com vocês de só conseguirem verbalizar coisas que pensam e sentem muito tempo depois de terem pensado e sentido, enfim? Talvez se eu tivesse entendido tudo isso alguns anos atrás tanta coisa teria sido mais fácil.

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A Imortalidade

Publicado: julho 24, 2007 em Reflexões

Sempre me perguntaram: “mas não seria um absurdo que tudo fosse assim, tão passageiro? Que tudo se esvaziasse com a nossa morte? Que fosse simplesmente um fim?”.

De fato, pode parecer estranho para a maioria que, depois da morte, não exista mais vida. Devo confessar que apesar de inquietante para a maioria, considero a idéia com indescritível leveza: um sono em que não podem me acordar. Em que a paz seja tão forte que não possa ser perturbada. Viver uma paz sem injustiças.

Mas, a despeito de toda paz que um dia possa vir a ter, tenho certeza de que o mais importante que existe em nós é eterno. É uma constatação radical, mas que me parece bastante clara: o mais fundamental é tudo aquilo que a gente faz durante a vida. Não digo apenas das coisas que construimos, mas também (e principalmente) da maneira como nos portamos em relação ao mundo.

Não só das obras que realizamos. Mas de tudo o que fomos e fizemos no mundo com certeza vai ecoar para sempre. É exatamente essa dialética que me torna imortal: o meu contato com o mundo vai transformá-lo (e me transformar) de maneira sempre irreversível. Nunca mais o mundo será o mesmo.

E isso me dá uma perspectiva de responsabilidade muito maior do que qualquer Juízo Final.  Tudo o que eu fizer vai ecoar para sempre!

Por isso, tento viver uma vida condizente com o que acredito. Tão difícil, eu sei. Sou tão, tão menor do que meus sonhos, que me soa até estranho dizer isso. 

E é essa responsabilidade (e diria até gravidade) que me enche de vontade de fazer as coisas da melhor maneira possível. Tomara que os meus sorrisos contagiem as pessoas e as façam ter um dia (mesmo que infimamente) melhor. Tomara que os gestos de gentileza, que as escolhas em prol das pessoas que gosta, que tudo isso faça diferença. Tomara que eu consiga fazer a minha parte e que possamos transformar essa sociedade cujo alicerce é a exploração do homem pelo próprio homem. E tomara que dos meus erros não resultem muitas feridas ou destruições.

Precisamos tomar cuidado com o que somos. O pensar, se não for condizente com nossas posturas e atitudes em relação ao mundo, é uma utopia esvaziada de todo o seu conteúdo.

Eu sou tão distraído.
Às vezes demoro tanto para perceber o mais óbvio. Sei que não é falta de atenção ou cuidado. Também não é displicência. É só porque me foge. Acho que é porque o coração não quer aceitar por verdadeiro.

Ela é uma das pessoas que eu mais amo por mundo. É a maior das revolucionárias, apesar de às vezes ser alguém tão quadrada e intransigente. Um grande modelo para mim, daqueles modelos que mais do que imitar a gente absorve. A gente sente, sabe?

Ela é responsável, junto com minha mãe, por praticamente tudo o que eu tenho de bom. Com certeza pelo mais importante. Elas me ensinaram absolutamente tudo o que eu sei sobre bondade, altruísmo e solidariedade.

É uma das pessoas mais vivas que eu já conheci. Tão ativa! Sempre indo para todos os lados, sempre cuidando de todo mundo, sempre tão preocupada. Às vezes preocupada demais, eu sei, mas é como as vós são, não é?

Nunca me bateu. Pôs pimenta na minha boca uma vez na vida (eu, orgulhoso desde 1 metro e 20 centímetros, a desafiei) e ficou fazendo comidinhas gostosas para que eu a desculpasse por uma semana seguida. E moro com ela desde que eu existo.

Nasceu em uma família paupérrima. Morava com mãe, pai e 3 irmãs em um cortiço que tinha apenas um cômodo. Seu pai, pessoa pobre de dinheiro mas nobre de coração, era alfaiate e trabalhava 14 horas por dia para manter a família. Isso lhe custou a vida ao não seguir as recomendações médicas de repouso para tratar da tuberculose, alias.

Aos 12 anos já trabalhava. Olhava crianças. Engraçado… uma criança olhando crianças menores. Casou bastante cedo. Junto a um marido alcólatra, teve 6 filhos, sendo o último o mais especial (meu doce tio Thomaz, pessoa mais carinhosa que conheço e portador de sindrome de down). Quando os filhos eram pequenos, era costume dormirem bem cedo, pois lhe aflingia o fato deles reclamarem sua fome sem que nada pudesse fazer para sacia-la. Verdadeira guerreira: cuidava de todas as crianças e ainda costurava bolsas e sapatos para o marido ir vender de porta em porta. Se privava de tudo e ao mesmo tempo transmitia os valores mais valiosos para todos as suas voltas. Não lembro nunca de tê-la ouvido (ou ter alguém que lembrasse de) ela se queixar de algo para ela. Toda a sua luta e suas reclamações foram sempre para ajudar sua família.

Cara, que bosta. Não estou conseguindo falar nada dela. Isso não é o mais importante.

Minha avó é amor. É pessoa única, estrela grandiosa que guiou e cultivou dentro de mim as verdades mais profundas das quais nunca quero me distanciar. Ela é a pessoa que pensa por todos, que não guarda mágoas, que faz de tudo para que você esteja bem. Ela tem o abraço mais gostoso, o carinho mais afetuoso. É a pessoa que eu mais respeito, e uma das que mais me ensinou sobre amar. Um coração tão a frente, tão sensível ao mundo e as pessoas ao seu redor, tão incapaz de ser indiferente ao sofrimento alheio.

Ela está se despedindo e eu não tinha notado.

Ontem ela me acordou, no meio da madrugada. Pediu desculpas, disse que me amava e me deu um beijo. Semana passada me ligou no meio de uma viagem em que fiz, apenas para dizer que estava com saudades, e quando eu cheguei ela disse que essa casa não tinha tanta cor sem mim.

Minha tia estava arrumando as coisas… e ela queria dar o aparelho de fazer pontos e os pincéis que ela usava para desenhar em lenços. Notamos que os planos que não de curto prazo estão sendo deixados de lado, ela está ainda mais compreensiva e afetuosa com todos nós.

Não, não estou falando que ela está suspirando. Nem que está sucumbindo, ou se entregando. Mas algo acontece, algo que me faz prender a respiração e voltar a ter um medo enorme, quase infantil, me mostrando que realmente essas coisas não são minhas, que eu não posso ter o controle de tudo que me é importante, que eu preciso me preparar para aceitar que certas coisas fazem parte do rumo natural da vida.

Dói, dói muito pensar nessa possibilidade. E é incrível como de um pensamento pode sobressair uma dor tão real. Parece que quase posso enxergá-la dentro de mim.

Minha avó é luz, amor, alegria e vida. E eu espero poder chegar aos pés dela em suas qualidades e ser capaz de oferecer-lhe, nesse e em todos os próximos momentos juntos, leveza e felicidade.

Desejo ser capaz de oferecer isto a todos. Mas especialmente para ela.

Pequenas, médias ou grandes: loucuras, às vezes, são imprescindíveis a vida.
Fugir de padrões. Fugir de controles.

Fazer um pouco do que dá na telha. Não digo sobre ser inconseqüente ou irresponsável com as pessoas ao nosso redor.

Falo sobre ser livre. Sobre não estar preso ao cotidiano. Sobre nos permitir!
Sabe, vamos lá! A vida é essa, e o tempo não vai voltar não! “eu gostaria de ter ido quando tive a oportunidade”, “eu gostaria de ter dito o quanto me era importante”, “eu gostaria de ter ousado mais” – são pensamentos dos quais você poderá escapar amanhã?

Se você começar a pensar, agora, que você PRECISA fazer algumas loucuras de vez em quando, tenho certeza que você vai voar muito mais longe. Se é construtivo pode valer a pena transgredir! Tenha certeza de que vidas intensas contém, intrinsicamente ligadas a si, um emaranhado de transgressões e desobediências aos grandes paradigmas.

E eu vou agora para minha pequena loucura. Cheia de sol, vida, poesia, música e calor. Bastante calor.

Crazy (Recomendo a versão de Alanis Morissette)

In a church, by the face,
He talks about the people going under.

Only child know…

A man decides after seventy years,
That what he goes there for, is to unlock the door.
While those around him criticize and sleep…
And through a fractal on a breaking wall,
I see you my friend, and touch your face again.
Miracles will happen as we trip.

But we’re never gonna survive, unless…
We get a little crazy
No we’re never gonna survive, unless…
We are a little…

…Crazy yellow people walking through my head.
One of them’s got a gun, to shoot the other one.
And yet together they were friends at school
Ohh, get it, get it, get it, get it no no!

If all were there when we first took the pill,
Then maybe, then maybe, then maybe, then maybe…
Miracles will happen as we speak.

But we’re never gonna survive unless…
We get a little crazy.
No we’re never gonna survive unless…
We are a little…
Crazy…
No no, never survive, unless we get a little… bit…

In a sky full of people, only some want to fly,
Isn’t that crazy?
In a world full of people, only some want to fly,
Isn’t that crazy?
Crazy…
In a heaven of people there’s only some want to fly,
Ain’t that crazy?
Oh baby… Oh darlin…
In a world full of people there’s only some want to fly,
Isn’t that crazy?
Crazy…crazy…crazy.

But we’re never gonna survive unless, we get a little crazy
No we’re never gonna to survive unless we are a little…crazy..

No no, never survive unless, we get a little bit…
And then you see things
The size
Of which you’ve never known before
They’ll break it

Someday…
Only child know….

Them things
The size
Of which you’ve never known before
Someday…

Não raramente sinto que o tempo distoa dos meus desejos sobre ele. E isso se reflete, principalmente, pela ausência de tempo de fazer não só tudo aquilo que me é importante, mas também realizar pequenos anseios que somados fazem toda a diferença.

De certa maneira, sou muito ambicioso. Meus objetivos são muito grandes. E não é por ser megalomaníaco, é questão de achar que realmente muita coisa deve mudar. Mas, pera aí, vamos com calma. Começar pelas pequenas coisas quase sempre é uma questão de construir os alicerses para as grandes construções. Então vamos alinhando os objetivos, tentando encontrar um emprego que nos permita viver condizentemente com o que pensamos e sentimos, tentando cultivar as amizades e deixando o coração respirar: quantas vezes não nos deixamos aprisionar e nos entregamos ao cinza do cotidiano, da insegurança e da ignorância?

Acho que para mudar a forma que vivo preciso me tornar consciente: este é um pensamento recorrente e de implicações muito práticas no cotidiano. O que eu faço, e por que eu faço? Se, para mim, o grande problema do mundo é que as pessoas estão se tornando incapazes de sentir o peso da realidade ao seu redor, será que eu estou sentindo este peso na medida certa, sem que isso sufoque as minhas esperanças e, ao mesmo tempo, sem que isso abra as portas para o comodismo e para a indiferença?

Não há como estar satisfeito com tudo o que se faz, essa é uma constatação óbvia. Mas se pelo menos não precisarmos sofrer pelo que deixamos de fazer, já é um bom começo. E será que estamos caminhando de olhos abertos para um lugar que nos traga mais realizações das que temos agora?

A palavra da vez é construção.

Sinto que às vezes começo pensando em escrever uma coisa, mas as palavras me escapam, e quando termino não sei muito bem o que aconteceu. É como sonhar: você é sujeito, e no fundo seu papel nos caminhos que escolhe são fundamentais, mas isso não significa que você tenha o controle. Divertido, mas perigoso.

Procurando novos horizontes….

Publicado: julho 5, 2007 em Reflexões

Escolhas. Elas fazem toda a diferença…

Podemos escolher seguir a maré. Podemos olhar apenas na mesma direção onde todos olham. Ou podemos tentar fazer diferente. Podemos olhar mais para dentro, e perceber que os nossos sentimentos não se acalmam enquanto nos acomodamos. Não o nosso. Podemos olhar mais para fora, e perceber que o mundo que está ao nosso redor não é exatamente como gostaríamos que fosse, mas que podemos melhorá-lo.

Podemos escolher fazer o que todo mundo faz. Ou podemos escolher fazer coisas que nos fazem mais diferença. Podemos trilhar nosso caminho sem ter consciência realmente dos lugares por onde andamos, mas também podemos buscar os rumos que nos permitam estar no lugar que gostaríamos.

É por isto que, neste momento, eu escolho lutar por este objetivo:  gosto muito de Direito, mas gosto ainda mais quando consigo senti-lo construir algo que consiga fazer diferença para o mundo em que vivo enquanto me oferece realização profissional, quando percebo que as minhas capacidades e aptidões coexistem e estimulam os meus sonhos e ideais.

p.s.: carta pós dinâmica que pediram para escrever para uma entrevista de estágio.

p.s.2: to indo pra FLIP e depois passear no Rio. Viajar com amigos + cultura + rever queridos amigos distantes… um bom feriado 🙂

Saudade dói no peito

Publicado: julho 1, 2007 em Declarações

Saudades.

Essa é uma das coisas com as quais não sei lidar muito bem.

Não é que eu seja saudosista, ou que não saiba me libertar do passado. Não, não, eu faço questão de pensar sempre que tudo o que vivi foi fundamental para me tornar a pessoa que sou: não alguém perfeito ou realmente incrível, mas uma pessoa que se esforça para estar atenta a realidade a sua volta e as coisas que lhe são importantes.

A parte disso, eu acho que as saudades me mostram uma realidade diferente da que eu imaginei pra mim. Pessoas das quais nunca imaginei que estaria distante. Algumas das mais especiais que encontrei, com certeza. Outras que eu nunca achava que o tempo poderia afastar. Pessoas que estão perto, mas muito além do meu alcance.

A saudade (a verdadeira saudade, não aquela que podemos terminar com um simples telefonema), é como um tiro no peito, a sensação de perda, a vida sussurando em seu ouvido: resigne-se, a dor é inevitável, você deve senti-la, isso é o certo.

É como um filme com final triste. Você gostaria que fosse diferente, mas soa tão intangível. Você tenta esquecer, pensar em outras coisas, mas vez ou outra isso volta. E quase sempre nos momentos de maior vulnerabilidade.

Bom, é um perfume suave e constante que está sempre na minha vida. Por mais que outros perfumes possam me dar a sensação de que estou livre deste, tão logo fique um pouco mais distante destes, ou mesmo quando estou mais sensível aos cheiros, lá está: a vida novamente sussurra me lembrando das ausências que eu não gostaria que existissem.

A única coisa que me consola (não diminui a saudade, mas ajuda a suportá-la) é saber que grande parte das ausências foram motivadas por circunstâncias diversas, e os caminhos tomados foram bonitos e condizentes com os sonhos e desejos de cada um.

Nessa música parece que Renato Russo estava falando sobre a morte. Mas eu acho que não. Acho que ele estava falando sobre a saudade.

Love in the afternoon
Legião Urbana

É tão estranho, os bons morrem jovens
Assim parece ser quando me lembro de você
Que acabou indo embora… cedo demais…

Quando eu lhe dizia: – me apaixono todo dia e é sempre a pessoa errada
Você sorriu e disse: – eu gosto de você também
Só que você foi embora cedo demais
Eu continuo aqui, meu trabalho e meus amigos
E me lembro de você em dias assim
dia de chuva, dia de sol
E o que sinto eu não sei dizer

– Vai com os anjos, vai em paz
Era assim todo dia de tarde, a descoberta da amizade
Até a próxima vez, é tão estranho
Os bons morrem antes
Me lembro de você e de tanta gente
Que se foi cedo demais

E cedo demais eu aprendi a ter tudo que sempre quis
Só não aprendi a perder
E eu, que tive um começo feliz
Do resto eu não sei dizer

Lembro das tardes que passamos juntos
Não é sempre, mas eu sei
Que você está bem agora

Só que este ano o verão acabou
Cedo demais.