Arquivo de dezembro, 2007

Mariana

Publicado: dezembro 10, 2007 em Declarações, Reflexões

Acordou cedo e se espreguiçou vagarosamente. O mais legal de acordar a essa hora é que sentia que o mar era mais seu. Era como se em alguns pedaços do dia fizesse mais parte do mundo. De certa maneira lhe eram importantes os ciclos, e ela precisava do começo e o fim.

Do início porque era uma página em branco em que poderia escrever uma nova história.  Ela gostaria de ter uma nova história para escrever todo dia. E a parte em que planejava a história era sempre a melhor. O fim era mais peculiar. Gostava da noite, e isso é tudo o que ela poderia dizer caso lhe fosse perguntado.
Mas tem mais… tem sempre algo mais!

Aquele dia, especialmente, ela tinha reservado para redescobrir a si mesma.

Não se deixa para trás aquilo tudo sem que isso a transformasse de tal maneira que ficasse difícil às vezes ser capaz de se reconhecer. Tinha se convencido, sem perceber, que deixou a maioria dos seus sonhos para trás, porque estes lhe machucavam muito!

(antes de taxar esta conclusão como ilógica, seria bom olhar um pouquinho para os sonhos de cada um – e o que foi realizado de cada um deles).

Machuca muito querer viver os sonhos quando isto não depende só de você. E ela não era do tipo que dependia só dela. Dependia das estrelas, do barulho do mar, do ar puro e das pessoas que conseguiam, com leveza (e quase sem querer, eu imagino) chegar-lhe até o coração (mas ela usaria aqui a palavra alma).

Engraçado como existem algumas referências na nossa vida. Às vezes é um lugar, às vezes é uma lembrança. O fato, enfim, é que a maioria das coisas não estavam claras para ela. Mas algumas delas, que pude perceber, me fizeram pensar durante muito tempo, e admirar essa menina, beleza que sente e que as vezes é obrigada a fazer parte de um mundo que não é parecido com o dela. Mas que tem o poder de ver de um jeito (e isso é só dela) que faz com que as cores sejam tão mais intensas – não é apenas uma questão de força, mas sim uma questão de sangue, estrela, água do mar e fogo do peito. Eu acho que tem muito a ver com a luz que enxergo em seus olhos. Não é de uma alegria imensurável, mas de uma doce profundidade na qual sempre quis mergulhar…

Estava em pé (na ponta dos pés). Ligava o som e chutava o ar (se bem que o ar sentia mais como um carinho). Ela era consciente de que o dia não começaria sem que houvesse o movimento. Sem que se olhasse para uma certa direção (de preferência o sol nascente), sem que se sacudisse os cabelos (rebeldes, mas ela não podia reclamar de uma natureza que era também a sua).

E é por isso que alguns dias não existiam
Como, se não podia ver o horizonte?
Como, se não podia ver o céu?
(que fosse azul ou cinza, mas que estivesse lá!)
Como, com essas roupas tão incômodas?

Mas não é fácil. Os hábitos, deles a gente só vai sentir falta depois. Se eles nos prendem, meio que não importa sua natureza, passam a ser ruins. Não gosta de precisar no sentido de dependência, prefere sempre a escolha (embora tivesse um espírito apaixonado – e a paixão estava longe de ser uma opção ou escolha). E descobriu que até o carinho pode ser sufocante. Até o amor tem a sua dose certa (e essa foi a descoberta mais estranha de sua vida).

Ela me chamou, e sussurrou no meu ouvido só um pedaço do seus plano. E foi contagiante: já não dá pra ser o mesmo. Ela também me deixou um retrato, e disse que no meu coração estavam coisas que eu jamais poderia entender com a cabeça. Eu sei, e resigno-me, de certa forma: eu não acho que seja fé, mas existe um certo sentimento transcendental, e uma vontade enorme de encontrar essa menina de novo.Faltou dizer algo. E não dá para descansar enquanto eu não descobrir o que era. E preciso descobrir o que aconteceu. Me diga, por favor, o que aconteceu?