Arquivo de fevereiro, 2008

Duas perguntas feitas por Patch Adams:

– Existe alguma coisa mais importante no mundo do que o amor? A amizade, o companheirismo, a solidariedade, todas as atitudes que resultam do amor? A esperança, o afeto e o carinho?

(Acho que não. Na verdade, quase ninguém acha que não, penso eu)

– E qual é a sua estratégia para viver intensamente o amor, que você diz ser a coisa mais importante do mundo?

Pensando de maneira bastante objetiva, qual é a nossa estratégia em relação ao amor que julgamos importante? O quanto, de fato, nos dedicamos para aquilo que julgamos dar sentido à nossa vida?

E, principalmente, em que atitudes do cotidiano podemos enxergar estas escolhas ideológicas? O que fazemos que reflete a importância que damos ao amor? Fazemos sempre? Escolhemos alguns? Quem? E por que?

Precisamos prestar mais atenção no que sentimos e no que fazemos. Você prefere se reconhecer naquilo que você realmente faz, ou no que acha que deveria ter feito?

Sobre a pergunta, eu pensei na minha resposta. E nem sempre a minha estratégia é bem planejada, acho que na maioria das vezes ela é bastante intuitiva. Preciso me programar melhor para atingir minhas metas. Ser mais irresponsável (às vezes), ser mais disciplinado (às vezes). Questão de sentir o momento.

Pensei um pouco mais nessa minha resposta. Acho que a minha estratégia está em constante transformação e tem a ver, principalmente, com a postura que eu procuro ter com as pessoas, com meus ideais, com minhas lutas. Não é necessariamente o jeito mais fácil, mas é a maneira pela qual posso me realizar.

E o amor para mim está intrinsecamente ligado as pequenas atitudes do cotidiano. Quantas vezes nos dedicamos para resolver um problema dos outros, qual é a paciência para ouvir o que alguém tem a nos contar. O que reservamos para oferecer aos outros de conforto, o que podemos fazer de fato para a vida das pessoas com quem convivemos melhorar?

É importante que eu sinta que meus dias estão aproximando o mundo que desejo para aquele em que vivo. E para isso preciso pensar, também, de maneira mais global. Sendo mais específico, eu acho que as grandes revoluções vão vir através da conscientização/educação, e da mudança em como se constroem as relações sociais. Não dá para achar que a mudança é puramente pessoal e subjetiva. Existe um sistema e um estado de coisas contra as quais preciso lutar. E para mim é uma das demonstrações de amor mais importantes, da qual pretendo nunca me afastar (embora nem sempre seja fácil).

É a minha estratégia de amor, sem a qual sou vazio.

Qual a sua?

Link do vídeo que inspirou meu post:

Não é o tipo de pergunta que você ouve todo dia. Não é algo pelo qual você pode passar indiferente.

Quando recebi essa pergunta, a primeira coisa que fiz foi respirar – bem fundo e devagar. Antes de mais nada, é preciso sentir-se vivo: e para sentir-se vivo você precisa, antes de qualquer outra coisa, perceber algumas sensações: o ar (o frio e o calor), o tato (a pele responde aos estímulos – é gostoso pisar no azulejo gelado), e todas as coisas que são importante, realmente importantes, as quais muitas vezes não damos nomes mas sempre estão presentes dentro do coração.

Enfim, tudo aquilo que é importante para nós não precisa ser repetido sempre (embora seja um bom exercício, e às vezes muito saudável). Mas precisa estar sempre em tudo o que a gente faz.

Só lembrando (sabendo e sentindo) tudo isso é que eu pude responder:

“Que não seja imortal, posto que é chama, mas que seja infinito enquanto dure”

Eu não sei por quanto tempo conseguirei persistir com a esperança. Eu não sei se os meus sonhos mais importantes vão sobreviver a tudo que vier, não sei se vou conseguir resgatar tudo o que inevitavelmente cair durante o caminho.

Mas sei que vou tentar! Sei que isto me é fundamental, e sei que esta é a busca pela minha felicidade e realização. Esta é a maior certeza e o que há de mais importante dentro de mim, o resto é conseqüência (ou pequenos detalhes).

Sabe, precisamos fazer com que nossas lutas estejam carregadas de paixão. Fizemos nossas escolhas: não tinhamos todas as cartas na mão, mas vamos avaliar todas as possibilidades e descobrir o que é melhor, o que é bom.

E é por isso que desejo e preciso continuar a cultivar essa chama. Este é o fogo que me aquece, e é o que me faz ter certeza de que a minha vida vale a pena. Fazer isso sorrindo, como eu havia dito, só dá por causa das pessoas que fazem parte da minha vida. Por isso, vamos juntos.

E mesmo que nos desequilibremos, fica mais fácil não cair quando há uma mão para se segurar. Então, vamos juntos?

2008

Publicado: fevereiro 5, 2008 em Olhar para dentro, Reflexões

Neste ano muitas coisas especiais vão acontecer. É isso que eu sempre pensei para o começo de cada ano que vivi desde que me lembro por gente, e não vai ser diferente agora.

Eu lutarei para que os sentimentos sejam cada vez mais intensos. Sei que a dor é inevitável e serei sereno: sem fugas desesperadas, sem dores desnecessárias.

Para cultivar estes momentos intensos eu preciso entender melhor tudo o que acontece dentro de mim. O que me motiva, o que me faz feliz, o que eu preciso cultivar, o que eu quero para mim. E (felizmente) não há tanto segredo:

Me faz feliz estar perto dos meus amigos, pilares fundamentais que me fazem acreditar que o mundo pode mudar. Ou que me fazem rir até cair no chão com piadas absolutamente cretinas. Isso pode parecer simples, mas é o que mais me atrai e encanta nas pessoas: a capacidade de ser consciente e não permitir se alienar sem que com isso o peso se torne demasiadamente insustentável.

Talvez seja porque essa é uma das minhas maiores buscas. Não é sempre fácil me manter sereno quando o mundo em que  vivo é tão diferente do mundo em que gostaria de viver – e essa inquietação e intranqüilidade até que são bem vindas, porque me dão força para lutar pelas transformações nas quais acredito.

Mas às vezes, e especialmente quando a distância entre o querer e o viver são maiores do que posso transpor com minhas próprias pernas (o mundo que quero é mesmo tão diferente! – e certas coisas tão difíceis de mudar), ainda me curvo um pouco diante do que Drummond chamou de Sentimento do Mundo. E é por isso que sou tão dependente das pessoas (de conhecer, de estar perto, cultivar amizades, demonstrar o que sinto, tentar ser construtivo). Porque são elas que, mesmo sem saber, me permitem dizer que há muito mais do que duas mãos, que minha luta transcende minhas fronteiras pessoais, e que viver, apesar de tudo, ainda vale a pena.

E eu tenho descoberto cada vez mais a importância dos pequenos gestos. Engraçado como o discurso às vezes nos fala tão pouco enquanto algumas pequenas atitudes nos demonstram tanto. As pessoas podem ser realmente tão diferentes daquilo que enxergam em si! Tenho prestado atenção nos pequenos detalhes, em todos os tons de voz, nos abraços amigos, nas mensagens de carinho, em cada pedacinho do que recebo do mundo.

Amo Florianópolis. Amigos, um oceano gigante e lindo, um céu estrelado. Às vezes até esqueço o porquê de precisar voltar.

    Sentimento do mundo
    Carlos Drummond de Andrade

Tenho apenas duas mãos
e o sentimento do mundo,
mas estou cheio de escravos,
minhas lembranças escorrem
e o corpo transige
na confluência do amor.

Quando me levantar, o céu
estará morto e saqueado,
eu mesmo estarei morto,
morto meu desejo, morto
o pântano sem acordes.

Os camaradas não disseram
que havia uma guerra
e era necessário
trazer fogo e alimento.
Sinto-me disperso,
anterior a fronteiras,
humildemente vos peço
que me perdoeis.

Quando os corpos passarem,
eu ficarei sozinho
desfiando a recordação
do sineiro, da viúva e do microscopista
que habitavam a barraca
e não foram encontrados
ao amanhecer

esse amanhecer
mais noite que a noite.