Arquivo de maio, 2008

Gastar energia naquilo que vale a pena. Lutar bastante por tudo aquilo que merece o nosso suor. Dar o sangue para o que for merecedor do nosso sangue.

Temos pouco tempo, temos um mundo enorme a nossa frente. Temos que fazer escolhas!

E não vamos escolher o que é mesquinho. Não vamos escolher aquilo que não vai mudar em nada o mundo que a gente vive. Não vamos escolher brigar quando for o momento de oferecer compreensão. Não vamos escolher calar quando o mundo precisa mesmo da nossa indignação.

Não vamos ser displicentes com aquilo que nos é importante. Não sejamos negligentes com as nossas verdades.

Não vamos gastar a maior energia com os problemas pequenos. Faria com que faltasse energia para os problemas realmente importantes. Alias, não vamos gastar toda a energia com problemas. Precisamos também de outras construções. Precisamos canalizar nossa energia para que não se torne mera inundação. Precisa ser um rio no qual nossos sonhos possam navegar rumo à realização.

Movimento gera movimento. Disposição gera disposição. Quem se atreve a tentar corre o risco de conseguir. E quem quer viver intensamente, precisa estar disposto para o que realmente é importante para si.

Você sabe o que é realmente importante para você?

Show do Teatro Mágico sempre me proporciona sentimentos intensos. Hoje vou tentar explicar um pouquinho melhor (porque explicar, neste caso, significa também sentir mais!) sobre esse grande grupo que, ao meu ver, está travando uma interessante mudança de paradigmas no modo de se pensar a música.

A proposta do Teatro Mágico, acessível a todos, é unir diversas manifestações artísticas em um mesmo espetáculo. Fundamentalmente música, circo, poesia, teatro, dança. Mas essa união, por mais bela que seja, não seria tão incrível se não estivesse fundamentada em um objetivo muito maior. E é sobre ele que eu gostaria de falar um pouco agora.

No primeiro CD, eu vejo uma nítida preocupação em resgatar o sentir, o brilho no olhar, o abraço sincero, o companheirismo entre as pessoas, o carinho. Em fazer o coração bater mais forte, permitir que enxerguemos a vida sobre outras perspectivas, com muito mais vontade, com muito mais alegria, com muito mais disposição para as coisas que nos são realmente importantes. Que nos faz repetir que “sinto que sei que sou um tanto bem maior”, “só enquanto eu respirar vou me lembrar de você”, “às vezes a gente se pergunta por que é que não se junta tudo numa coisa só?”, “viva a sua maneira, não perca as estribeiras, saiba do teu valor, e amanheça brilhando mais forte, que a estrela do norte, que a noite entregou” e “camarada, viva a vida mais leve, não deixe que ela escorregue, que te cause mais dor”.

Músicas que nos ajudam a olhar para dentro e achar que isso tudo ainda vale a pena. Que cultivam valores importantes com uma energia vibrante simplesmente contagiante. Que abrem nosso coração para coisas tão boas.

Mas tudo isso tem um limite. Felicidade, alegria, companheirismo. São coisas fundamentais para nossa vida, mas que não se esgotam em si! Como podemos sentir essas coisas em um mundo profundamente marcado pela desigualdade social, pela massificação gerada por um capitalismo que produz pessoas cada vez mais consumistas? Será que toda e qualquer felicidade é bem vinda? Mesmo quando, para senti-la, precisemos fechar os olhos para as coisas que acontecem ao nosso redor, e impõe sofrimento a tantas outras pessoas?

Não. Não é toda a felicidade que é bem vinda. E isto eu vejo de uma forma bem clara no Teatro Mágico: Segundo Ato. Precisamos prestar atenção nas nossas verdades, nos nossos ideais e, principalmente, na realidade do mundo em que vivemos. Não podemos nos alienar, nos tornar indiferente a tudo aquilo que nos machuca. “Em cada gesto a gente tem que mostrar aquilo que a gente pensa, a nossa indignação da maneira que for. Mas que ela seja bem vinda, senão isto se torna o mérito e o monstro”. Eu acho que esta é a principal diferença entre os dois cd’s da banda. Em ambos podemos perceber o cultivar das sensações e dos questionamentos, mas enquanto no primeiro se encontra uma “magia e leveza”, o segundo nos puxa para a realidade e nos cobra uma postura diferente diante do mundo em que vivemos. Não podemos ficar no encantamento, deslumbramento. Precisamos fincar os pés no chão e construirmos as revoluções para que a felicidade não seja a magia de alguns momentos, mas sim um estado permanente permitido a todos, e não a uma minoria privilegiada e fechada a si mesmo.

O maior desafio do Fernando Anitelli e do Teatro Mágico, na minha opinião, é que enquanto o primeiro cd é bastante consensual (faz bem a todos nós olhar para dentro e cultivar os sentimentos que ele descreve) e nos trás conforto e alegria, o segundo cd trabalha questões mais complexas e um pouco menos acessíveis para grande parte dos fãs, sobre a realidade social na qual estamos inseridos e sobre a mudança de atitudes e paradigmas para que possamos praticar algumas verdades que dizemos sentir (todos falamos sobre um mundo mais justo, sobre ajudar as pessoas, sobre cuidar uns dos outros, mas com qual disposição estamos agindo de acordo com esse discurso?). O que eu espero, de verdade, é que os fãs, que gostam de se denominar de pessoas raras e especiais, façam jus a este magnífico trabalho e entendam que a mensagem do Teatro Mágico é muito maior do que a beleza de um espetáculo cheio de cores, musicalidade, e frases para repetirmos sem viver (“acredito que errado é aquele que fala correto e não vive o que diz”).

p.s.: Todas as frases que se encontram entre aspas, no presente post, são de autoria do Teatro Mágico.

p.s.2: São apenas minhas opiniões a respeito do que eu ouvi e senti. Tratam-se de conclusões pessoais, e não de verdades absolutas. Queria trazer a tona um debate, e não uma resposta em relação a conduta a ser tomada.

p.s.3: Se alguém conhecer uma gravação dessa música que esteja com melhor qualidade, e puder me indicar, eu ficaria bastante grato!

p.s.4: Para conhecer mais o trabalho do Teatro Mágico é só acessar http://www.oteatromagico.mus.br

Tantas pequenas atitudes que me mostram cada vez mais as verdades tão maiores do que palavras que às vezes são tão bonitas mas vazias de conteúdo.

Uma preocupação gratuita sobre como você vai voltar para casa tão tarde, um abraço forte e sincero dizendo que aquilo que te faz diferença realmente é importante para o mundo, um amigo que te empresta um livro que você não pediu, só porque conversamos sobre um assunto parecido um dia desses.

Uma amiga que consegue perceber que meu céu não está tão azul, uma avó que esconde o último pedaço de pudim para mim enquanto estou no banho, estar perto de pessoas que sei que se importam com as pessoas ao seu redor.

Eu sou muito sensível a pequenos gestos. E, nos últimos tempos, tenho me agarrado a eles para garantir um pouco de cor nos meus dias.

Apesar das coisas estarem bastante dentro dos rumos (desafios no trabalho, amigos bastante presentes, construção de alicerces para alguns sonhos e ideais), existe algo de cinza, uma inquietude constante, uma vontade de dar um passo além, encontrar algo que não estou conseguindo enxergar.

Apesar de tudo o que existe, falta um pouco de sentido. E se “eu sinto que sei que sou um tanto bem maior” (Teatro Mágico), parece que me falta algo para ser aquilo que sinto.

Amo U2 (e já devo ter dito isso algumas vezes aqui). Essa é uma tradução livre (leia-se por tradução livre uma tradução feita com algumas adequações em relação ao que essa música diz por mim) de I Still Haven’t Found What I’m Looking For.

Eu escalei as montanhas mais altas
Eu correria através dos campos
Só para estar com você
Só para estar com você

Eu corri, eu me arrastei
Eu escalei os muros da cidade
Através de todos os pedaços de vidros
Apesar de todas as lanças
Só para estar com você
Só para estar com você

Mas eu ainda não encontrei
O que estou procurando

Eu beijei lábios doces
Eu tive a mão dela sobre mim
E queimou como fogo
Esse desejo ardente

Eu aprendi a língua dos anjos
Eu pequei e me arrependi
E em uma noite tão quente
Eu estava frio como uma pedra
Mas eu ainda não encontrei
O que estou procurando

Eu acredito nas grandes revoluções
Eu acredito em todas as cores
E acredito em uma grande verdade
Mas ela ainda não é minha

Você quebrou certos laços
Você afrouxou as correntes
Você carregou minha cruz
E você sabe que eu acredito em você

Mas eu ainda não encontrei
O que estou procurando.

(E mesmo quando o sol não nasce

Você abre os olhos e levanta

Mesmo se a escuridão se aproxima

O brilho em seu olhar não espanta

E não é que esteja tudo certo

Mas a esperança ainda tem lugar para existir

E não é que não tenhamos nenhuma dúvida

Mas é tão especial que é impossível não tentar

No fim das contas é isso

Você não diz que vale a pena

Mas me faz querer sentir)

(e eu quero mesmo mesmo sentir)