Arquivo de dezembro, 2008

– O que você está respirando, Taís? O que é isso que corre em sua alma?

– Engraçado, eu estava olhando suas fotos. Você mudou tanto, Gabriel. Te vejo brincando e vivendo num mundo em que nunca imaginei vê-lo. Como se estivesse esquecido de algumas profundezas da vida. Profundezas que você me levou, e que eu continuo respirando.

Não é fácil ouvir isso da pessoa com quem compartilhei o amor mais idealista que já senti. E não é algo que se possa ouvir sem refletir sobre isso desde então.

Olhe para seus últimos 10 anos. O que você era, o que você se tornou? Vou ser mais específico: no que você acreditava, e no que você acredita agora? O que você achava que seria capaz de fazer no futuro, e o que você acredita que será capaz de fazer agora?

22 anos. Esta é a minha idade. A maior parte das minhas memórias se refere ao período vivido a partir dos 12 anos. Isto significa dizer que este é a primeira vez que posso responder a pergunta que fiz acima.

Primeiro, eu achava que mudaria o mundo se pudesse fazer com que as pessoas vissem o que estava acontecendo. Porque eu achava que tinha acontecido dessa forma comigo: por ter crescido perto de pessoas críticas e de valores sólidos, eu os conheci, e minha indignação em relação ao mundo era uma construção natural e inevitável.

Depois, a decepção: a mera constatação de uma situação manifestamente injusta e cruel não é suficiente para fazer com que as pessoas mudem suas posturas e concepções egoístas. A força do consumo é tantas vezes mais forte do que a sensação de fazer parte de um mesmo mundo. Não, não, isso vai além: algumas pessoas tem a necessidade de pertencer a um mundo privativo, restrito e luxuoso, mesmo que este seja construído com base na exploração, na frieza.

Percebi que ver não é suficiente. Compreender não é suficiente. Reagir é necessário, mas o que faz com que as pessoas reajam? O que pode mudar sua postura, o que pode fazê-las repensar seus sonhos, objetivos, vontades e, principalmente, o que pode fazer com que mudem suas atitudes e se tornem pessoas mais conscientes de que o mundo precisa mudar, e que a cada dia em que esta mudança atrasa mais tempo perpetuamos tanto sofrimento, egoísmo e indiferença?

Não saber a resposta diminui a velocidade com que eu corro em determinada direção, mas não diminui a vontade que sinto em relação às revoluções de que necessito. Se eu não estou sangrando, não significa que não esteja na batalha.

A questão é que eu não sei como fazer a revolução de que preciso, mas isso não significa que eu esteja acomodado, ou que eu não esteja agindo de acordo com o que acredito. A música ainda é um instrumento pelo qual pretendo lutar (e que tem um significativo poder de fazer as pessoas sentirem – ingrediente bem vindo às ações), as palavras ainda são uma ferramenta presente na minha vida, existem movimentos sociais cuja causa vale a pena apoiar, e, acima de tudo, existe uma vida que precisa ser vivida de forma condizente com aquilo que se acredita. Uma utopia a ser buscada, que Alanis definiu tão bem

Alanis Morissette – Utopia

Nos juntaríamos todos em uma sala
Afrouxaríamos nossos cintos
Conversaríamos
Todos relaxariam
Descansaríamos sem culpa
Não mentiríamos sem medo
Discordaríamos sem julgar

Nós ficaríamos E responderíamos E expandiríamos E incluiríamos E permitiríamos
E perdoaríamos E aproveitaríamos E envolveríamos E discerniríamos E inquiriríamos
E aceitaríamos E admitiríamos E divulgaríamos E abriríamos E alcançaríamos E falaríamos

Essa é Utopia, essa é minha Utopia
Esse é meu ideal minha idéia final
Utopia, essa é minha Utopia
Esse é meu nirvana
Meu ultimato

Abriríamos nossos braços
Nós todos pularíamos, nos deixaríamos cair
Nas redes de segurança

Nós dividiríamos E ouviríamos E apoiaríamos E acolheríamos
Seriamos arrastados pela paixão
Não investiríamos em resultados
Nós respiraríamos E seriamos encantadores E apreciaríamos a diferença Seriamos gentis
E aceitaríamos todas as emoções.

Nós providenciaríamos discussões
Todos falaríamos E todos seriamos ouvidos E nos sentiríamos notados.

Nós levantaríamos após os obstáculos
Mais definidos Mais gratos
Nós nos curaríamos Seriamos humildes E nada poderia nos parar
Seguraríamos forte

E deixaríamos ir E saberíamos quando fazer o que Nós libertaríamos E desarmaríamos E suportaríamos

     Durante os últimos meses, abdiquei de muitas coisas que me são extremamente importantes. Fiquei mais cansado do que jamais estive em toda minha vida. Estive muito angustiado em relação às minhas escolhas pessoais: vivi os sentimentos mais ambíguos, realização e frustração andaram lado a lado.

     Eu chutei o balde quando achei que devia, e não me arrependo (eu já sabia que o arrependimento serve para muita pouca coisa, e que a consciência e a maturidade fazem um trabalho muito melhor). Mas eu descobri que é muito, mas muito difícil viver alguns sonhos (embora não possa desistir deles).

     Descobri que eu posso menos do que imaginava em muitos aspectos. Que se eu deixar para resolver meus problemas nas últimas chances, não vou conseguir resolver boa parte deles. Que eu preciso tomar cuidado para andar na linha, para cuidar das coisas que são realmente importantes. Que eu me envolvo muito, e que tenho que aprender a trabalhar melhor as prioridades.

     Percebi, fundamentalmente, que a maior parte dos meus objetivos depende de disciplina e organização. Estes são os meus maiores desafios a partir de agora.

     A questão, cuja resposta é o título do presente post, se coloca da seguinte forma: boa parte do aprendizado, dos desafios e das convivências, por si só, não fazem tanto sentido ou não valem tudo aquilo que eu me distanciei para poder atravessar esse ano. Tudo isso terá valido a pena se servir para me aproximar daquilo que eu acredito. Tudo isso terá sido alienante se me afastar de minhas verdades, se me consumir demais.

Porque não me frustra o cansaço, a angústia, a dor e a abstenção, desde que elas estejam num contexto de busca por algo maior (e não me basta “sentir que sei que sou um tanto bem maior” – ser, nesta perspectiva, é viver).

Os passos foram dados, e me sinto cada vez mais perto do grande salto.