Arquivo de julho, 2009


De vez em quando a gente encontra alguns textos, umas centenas de palavras, que fazem com que sejamos obrigados a repensar boa tarde de nossa vida.

A questão é relativamente simples: todos nós queremos falar, queremos ser compreendidos, queremos que nossos entendimentos sejam compartilhados. Mas o quanto estamos dispostos a fazer o caminho contrário? Qual a quantidade de tempo e dedicação que estamos oferecendo, especialmente para aqueles que nos procuram (por desejo e necessidade), querendo compartilhar conosco?

Qual é a nossa maneira de receber as opiniões que são diferentes à nossa? Qual a nossa capacidade de respeitá-las, dentro do seu contexto, e entender que a verdade é em geral muito mais difícil de encontrar do que nossas convenientes simplificações.

Precisamos de mais respeito, principalmente com o quê os outros pensam e são. Cada opinião é um pedaço de uma personalidade, fruto de uma história, gerada através de uma vida de experiências únicas. Menosprezar uma idéia é menosprezar uma parte do mundo, só porque não faz parte, exatamente, do seu mundo.

Aprender a ouvir, portanto, é uma atitude indispensável para que possamos cultivar todo e qualquer sentimento de proximidade e identificação, e para que possamos compartilhar qualquer possibilidade com outra pessoa.

É nossa única chance de sermos menos sós e menos pó.

Segue abaixo o texto de Rubem Alves, a quem interessar…

 

 

Curso de Escutatória, por Rubem Alves.

Sempre vejo anunciados cursos de oratória. Nunca vi anunciado curso de escutatória. Todo mundo quer aprender a falar. Ninguém quer aprender a ouvir. Pensei em oferecer um curso de escutatória. Mas acho que ninguém vai se matricular.

Escutar é complicado e sutil. Diz o Alberto Caeiro que “não é bastante não ser cego para ver as árvores e as flores. É preciso também não ter filosofia nenhuma”. Filosofia é um monte de idéias, dentro da cabeça, sobre como são as coisas. Aí a gente que não é cego abre os olhos. Diante de nós, fora da cabeça, nos campos e matas, estão as árvores e as flores. Ver é colocar dentro da cabeça aquilo que existe fora. O cego não vê porque as janelas dele estão fechadas. O que está fora não consegue entrar. A gente não é cego. As árvores e as flores entram. Mas – coitadinhas delas – entram e caem num mar de idéias. São misturadas nas palavras da filosofia que mora em nós. Perdem a sua simplicidade de existir. Ficam outras coisas. Então, o que vemos não são as árvores e as flores. Para se ver e preciso que a cabeça esteja vazia.

Faz muito tempo, nunca me esqueci. Eu ia de ônibus. Atrás, duas mulheres conversavam. Uma delas contava para a amiga os seus sofrimentos. (Contou-me uma amiga, nordestina, que o jogo que as mulheres do Nordeste gostam de fazer quando conversam umas com as outras é comparar sofrimentos. Quanto maior o sofrimento, mais bonitas são a mulher e a sua vida. Conversar é a arte de produzir-se literariamente como mulher de sofrimentos. Acho que foi lá que a ópera foi inventada. A alma é uma literatura. É nisso que se baseia a psicanálise…) Voltando ao ônibus. Falavam de sofrimentos. Uma delas contava do marido hospitalizado, dos médicos, dos exames complicados, das injeções na veia – a enfermeira nunca acertava -, dos vômitos e das urinas. Era um relato comovente de dor. Até que o relato chegou ao fim, esperando, evidentemente, o aplauso, a admiração, uma palavra de acolhimento na alma da outra que, supostamente, ouvia. Mas o que a sofredora ouviu foi o seguinte: “Mas isso não é nada…” A segunda iniciou, então, uma história de sofrimentos incomparavelmente mais terríveis e dignos de uma ópera que os sofrimentos da primeira.

Parafraseio o Alberto Caeiro: “Não é bastante ter ouvidos para se ouvir o que é dito. É preciso também que haja silêncio dentro da alma.” Daí a dificuldade: a gente não agüenta ouvir o que o outro diz sem logo dar um palpite melhor, sem misturar o que ele diz com aquilo que a gente tem a dizer. Como se aquilo que ele diz não fosse digno de descansada consideração e precisasse ser complementado por aquilo que a gente tem a dizer, que é muito melhor. No fundo somos todos iguais às duas mulheres do ônibus. Certo estava Lichtenberg – citado por Murilo Mendes: “Há quem não ouça até que lhe cortem as orelhas.” Nossa incapacidade de ouvir é a manifestação mais constante e sutil da nossa arrogância e vaidade: no fundo, somos os mais bonitos…

Tenho um velho amigo, Jovelino, que se mudou para os Estados Unidos, estimulado pela revolução de 64. Pastor protestante (não “evangélico”), foi trabalhar num programa educacional da Igreja Presbiteriana USA, voltado para minorias. Contou-me de sua experiência com os índios. As reuniões são estranhas. Reunidos os participantes, ninguém fala. Há um longo, longo silêncio. (Os pianistas, antes de iniciar o concerto, diante do piano, ficam assentados em silêncio, como se estivessem orando. Não rezando. Reza é falatório para não ouvir. Orando. Abrindo vazios de silêncio. Expulsando todas as idéias estranhas. Também para se tocar piano é preciso não ter filosofia nenhuma). Todos em silêncio, à espera do pensamento essencial. Aí, de repente, alguém fala. Curto. Todos ouvem. Terminada a fala, novo silêncio. Falar logo em seguida seria um grande desrespeito. Pois o outro falou os seus pensamentos, pensamentos que julgava essenciais. Sendo dele, os pensamentos não são meus. São-me estranhos. Comida que é preciso digerir. Digerir leva tempo. É preciso tempo para entender o que o outro falou. Se falo logo a seguir são duas as possibilidades. Primeira: “Fiquei em silêncio só por delicadeza. Na verdade, não ouvi o que você falou. Enquanto você falava eu pensava nas coisas que eu iria falar quando você terminasse sua (tola) fala. Falo como se você não tivesse falado.” Segunda: “Ouvi o que você falou. Mas isso que você falou como novidade eu já pensei há muito tempo. É coisa velha para mim. Tanto que nem preciso pensar sobre o que você falou.” Em ambos os casos estou chamando o outro de tolo. O que é pior que uma bofetada. O longo silêncio quer dizer: “Estou ponderando cuidadosamente tudo aquilo que você falou.” E assim vai a reunião.

Há grupos religiosos cuja liturgia consiste de silêncio. Faz alguns anos passei uma semana num mosteiro na Suíça, Grand Champs. Eu e algumas outras pessoas ali estávamos para, juntos, escrever um livro. Era uma antiga fazenda. Velhas construções, não me esqueço da água no chafariz onde as pombas vinham beber. Havia uma disciplina de silêncio, não total, mas de uma fala mínima. O que me deu enorme prazer às refeições. Não tinha a obrigação de manter uma conversa com meus vizinhos de mesa. Podia comer pensando na comida. Também para comer é preciso não ter filosofia. Não ter obrigação de falar é uma felicidade. Mas logo fui informado de que parte da disciplina do mosteiro era participar da liturgia três vezes por dia: às 7 da manhã, ao meio-dia e às 6 da tarde. Estremeci de medo. Mas obedeci. O lugar sagrado era um velho celeiro, todo de madeira, teto muito alto. Escuro. Haviam aberto buracos na madeira, ali colocando vidros de várias cores. Era uma atmosfera de luz mortiça, iluminado por algumas velas sobre o altar, uma mesa simples com um ícone oriental de Cristo. Uns poucos bancos arranjados em “U” definiam um amplo espaço vazio, no centro, onde quem quisesse podia se assentar numa almofada, sobre um tapete. Cheguei alguns minutos antes da hora marcada. Era um grande silêncio. Muito frio, nuvens escuras cobriam o céu e corriam, levadas por um vento impetuoso que descia dos Alpes. A força do vento era tanta que o velho celeiro torcia e rangia, como se fosse um navio de madeira num mar agitado. O vento batia nas macieiras nuas do pomar e o barulho era como o de ondas que se quebram. Estranhei. Os suíços são sempre pontuais. A liturgia não começava. E ninguém tomava providências. Todos continuavam do mesmo jeito, sem nada fazer. Ninguém que se levantasse para dizer: “Meus irmãos, vamos cantar o hino…” Cinco minutos, dez, quinze. Só depois de vinte minutos é que eu, estúpido, percebi que tudo já se iniciara vinte minutos antes. As pessoas estavam lá para se alimentar de silêncio. E eu comecei a me alimentar de silêncio também. Não basta o silêncio de fora. É preciso silêncio dentro. Ausência de pensamentos. E aí, quando se faz o silêncio dentro, a gente começa a ouvir coisas que não ouvia. Eu comecei a ouvir. Fernando Pessoa conhecia a experiência, e se referia a algo que se ouve nos interstícios das palavras, no lugar onde não há palavras. E música, melodia que não havia e que quando ouvida nos faz chorar. A música acontece no silêncio. É preciso que todos os ruídos cessem. No silêncio, abrem-se as portas de um mundo encantado que mora em nós – como no poema de Mallarmé, A catedral submersa, que Debussy musicou. A alma é uma catedral submersa. No fundo do mar – quem faz mergulho sabe – a boca fica fechada. Somos todos olhos e ouvidos. Me veio agora a idéia de que, talvez, essa seja a essência da experiência religiosa – quando ficamos mudos, sem fala. Aí, livres dos ruídos do falatório e dos saberes da filosofia, ouvimos a melodia que não havia, que de tão linda nos faz chorar. Para mim Deus é isto: a beleza que se ouve no silêncio. Daí a importância de saber ouvir os outros: a beleza mora lá também. Comunhão é quando a beleza do outro e a beleza da gente se juntam num contraponto…

São suas escolhas!

Publicado: julho 18, 2009 em Olhar para dentro, Reflexões

Você não escolhe tudo o que vai acontecer na sua vida, mas pode escolher como vai reagir a isso.

Existem aqueles que preferem se sentir sempre seguros (ainda que dentro de redomas vazias), e existem aqueles que preferem sentir e sonhar. O que você escolhe, quando segurança e potenciais paixões se colocam em lados antagônicos?

O sangue dele está escorrendo, você quer ser o que estanca ou o que desmaia? Há pessoas partindo, você prefere ir embora ou segurar suas mãos?

Há injustiças por todos os lados, e milhões de pessoas sentadas em frente à TV na novela das 9. Você prefere os sofás ou as revoluções?

Existem aqueles que lutam por dinheiro e sucesso profissional e existem aqueles que lutam por aquilo que acreditam (e, ainda assim, existem aqueles que acreditam que não são responsáveis pelo mundo em que vivem, e aqueles que dedicam suas vidas a transformá-lo).

Existem aqueles nadando contra a corrente (só para exercitar todo músculo que sente)¹, e existem aqueles que deixam a maré decidir para onde vai o barco de suas vidas.

Existem aqueles dispostos a fazer tudo intensamente, e existem aqueles que estão presos em velhos hábitos e rotinas, por puro conforto.

Quem é você?

Quem você gostaria de ser?

E o que está fazendo para isso?

¹: Cazuza – Pro Dia Nascer Feliz

Universo em expansão!

Publicado: julho 12, 2009 em Olhar para dentro, Reflexões

Casa nova. Paredes brancas (por enquanto), cômodos vazios. E, acima de tudo, o silêncio. A vida segue por linhas tortas, mas talvez nada seja como antes. Depende de tudo o que eu fizer de agora em diante.

(hoje, mais do que nunca, tudo depende do agora)

Percebo o quanto na minha vida fui uma pessoa observadora e distraída. Sempre me importei muito com o mundo, e isso sempre me manteve ocupado de forma suficiente para que me distraísse sobre as minhas questões existenciais mais perturbadoras.

Agora, diante da imensidão branca que me cerca, não há mais desejo ou possibilidade de fugir. Preciso enfrentar meus próprios demônios, ou eles me devorarão (e me perder, neste sentido, poderia soar bastante cômodo, mas não é o que eu realmente desejo).

O primeiro demônio é o da insegurança, que me paralisa e faz com que eu me feche diante de possibilidades que luto com tanto afinco para construir. É engraçado como posso ser a pessoa mais destemida, em determinadas situações, e o adolescente mais inseguro, em tantas outras.

O segundo demônio é o da solidão, que faz com que eu me distancie de tanta gente que me é importante, e sinta tanta falta de pessoas que admiro tanto. E a questão é que eu gosto de estar sozinho, mas ao mesmo tempo gostaria que não gostassem de me ver sozinho. Este é um daqueles segredos que eu ainda não desvendei, mas pretendo um dia entender.

O terceiro demônio, e talvez o mais importante de todos, é uma das lutas mais constantes na minha vida, na qual se baseia quase tudo o que eu escrevo, e boa parte dos meus conflitos anteriores: como adquirir a disposição necessária para lutar com cada vez mais força na direção de tudo o que acredito.

Entendo um pouco sobre os sintomas da doença de minha alma, mas o que mais me interessa é a sua cura.

(“para nos tornarmos imortais, a gente tem que aprender a morrer com aquilo que fomos, com aquilo que somos nós…”)

De certa forma, acho que durante muito tempo procurei as respostas ao meu redor, quando na verdade me abstive de olhar para dentro. Não me esforcei no sentido de resolver minhas angústias, apenas as enganei por tempo suficiente para que nunca fossem prioridades. Mas nenhuma revolução poderá começar por qualquer outro lugar que não seja o nosso peito.

E é aqui que começará a minha. A reconstrução se inicia mais uma vez: percebo que não chegarei ao céu com as estruturas que construí, decido derrubá-las e começar outra vez. E, como diria a minha música-norte, o hino da vida que eu gostaria de ter: as únicas coisas que poderei levar comigo são aquelas que não se pode deixar para trás.

(Ah, tantas cores para se descobrir para preencher paredes tão brancas. A mera perspectiva diante das novas possibilidades faz com que caíam as armaduras e cresça a disposição: “vem, vamos embora, que esperar não é fazer, quem sabe faz a hora, não espera acontecer”).

p.s.: referências neste post à músicas do Teatro Mágico, U2 e Geraldo Azevedo.

p.s.2: parece que a gente quer falar algo, mas de repente as palavras fogem e estamos falando outra coisa… em condições normais eu protestaria, mas como me emancipar de qualquer outra coisa se não for capaz de libertar meus próprios pensamentos?