Curso de Escutatória – Rubem Alves

Publicado: julho 21, 2009 em Olhar para dentro, Reflexões


De vez em quando a gente encontra alguns textos, umas centenas de palavras, que fazem com que sejamos obrigados a repensar boa tarde de nossa vida.

A questão é relativamente simples: todos nós queremos falar, queremos ser compreendidos, queremos que nossos entendimentos sejam compartilhados. Mas o quanto estamos dispostos a fazer o caminho contrário? Qual a quantidade de tempo e dedicação que estamos oferecendo, especialmente para aqueles que nos procuram (por desejo e necessidade), querendo compartilhar conosco?

Qual é a nossa maneira de receber as opiniões que são diferentes à nossa? Qual a nossa capacidade de respeitá-las, dentro do seu contexto, e entender que a verdade é em geral muito mais difícil de encontrar do que nossas convenientes simplificações.

Precisamos de mais respeito, principalmente com o quê os outros pensam e são. Cada opinião é um pedaço de uma personalidade, fruto de uma história, gerada através de uma vida de experiências únicas. Menosprezar uma idéia é menosprezar uma parte do mundo, só porque não faz parte, exatamente, do seu mundo.

Aprender a ouvir, portanto, é uma atitude indispensável para que possamos cultivar todo e qualquer sentimento de proximidade e identificação, e para que possamos compartilhar qualquer possibilidade com outra pessoa.

É nossa única chance de sermos menos sós e menos pó.

Segue abaixo o texto de Rubem Alves, a quem interessar…

 

 

Curso de Escutatória, por Rubem Alves.

Sempre vejo anunciados cursos de oratória. Nunca vi anunciado curso de escutatória. Todo mundo quer aprender a falar. Ninguém quer aprender a ouvir. Pensei em oferecer um curso de escutatória. Mas acho que ninguém vai se matricular.

Escutar é complicado e sutil. Diz o Alberto Caeiro que “não é bastante não ser cego para ver as árvores e as flores. É preciso também não ter filosofia nenhuma”. Filosofia é um monte de idéias, dentro da cabeça, sobre como são as coisas. Aí a gente que não é cego abre os olhos. Diante de nós, fora da cabeça, nos campos e matas, estão as árvores e as flores. Ver é colocar dentro da cabeça aquilo que existe fora. O cego não vê porque as janelas dele estão fechadas. O que está fora não consegue entrar. A gente não é cego. As árvores e as flores entram. Mas – coitadinhas delas – entram e caem num mar de idéias. São misturadas nas palavras da filosofia que mora em nós. Perdem a sua simplicidade de existir. Ficam outras coisas. Então, o que vemos não são as árvores e as flores. Para se ver e preciso que a cabeça esteja vazia.

Faz muito tempo, nunca me esqueci. Eu ia de ônibus. Atrás, duas mulheres conversavam. Uma delas contava para a amiga os seus sofrimentos. (Contou-me uma amiga, nordestina, que o jogo que as mulheres do Nordeste gostam de fazer quando conversam umas com as outras é comparar sofrimentos. Quanto maior o sofrimento, mais bonitas são a mulher e a sua vida. Conversar é a arte de produzir-se literariamente como mulher de sofrimentos. Acho que foi lá que a ópera foi inventada. A alma é uma literatura. É nisso que se baseia a psicanálise…) Voltando ao ônibus. Falavam de sofrimentos. Uma delas contava do marido hospitalizado, dos médicos, dos exames complicados, das injeções na veia – a enfermeira nunca acertava -, dos vômitos e das urinas. Era um relato comovente de dor. Até que o relato chegou ao fim, esperando, evidentemente, o aplauso, a admiração, uma palavra de acolhimento na alma da outra que, supostamente, ouvia. Mas o que a sofredora ouviu foi o seguinte: “Mas isso não é nada…” A segunda iniciou, então, uma história de sofrimentos incomparavelmente mais terríveis e dignos de uma ópera que os sofrimentos da primeira.

Parafraseio o Alberto Caeiro: “Não é bastante ter ouvidos para se ouvir o que é dito. É preciso também que haja silêncio dentro da alma.” Daí a dificuldade: a gente não agüenta ouvir o que o outro diz sem logo dar um palpite melhor, sem misturar o que ele diz com aquilo que a gente tem a dizer. Como se aquilo que ele diz não fosse digno de descansada consideração e precisasse ser complementado por aquilo que a gente tem a dizer, que é muito melhor. No fundo somos todos iguais às duas mulheres do ônibus. Certo estava Lichtenberg – citado por Murilo Mendes: “Há quem não ouça até que lhe cortem as orelhas.” Nossa incapacidade de ouvir é a manifestação mais constante e sutil da nossa arrogância e vaidade: no fundo, somos os mais bonitos…

Tenho um velho amigo, Jovelino, que se mudou para os Estados Unidos, estimulado pela revolução de 64. Pastor protestante (não “evangélico”), foi trabalhar num programa educacional da Igreja Presbiteriana USA, voltado para minorias. Contou-me de sua experiência com os índios. As reuniões são estranhas. Reunidos os participantes, ninguém fala. Há um longo, longo silêncio. (Os pianistas, antes de iniciar o concerto, diante do piano, ficam assentados em silêncio, como se estivessem orando. Não rezando. Reza é falatório para não ouvir. Orando. Abrindo vazios de silêncio. Expulsando todas as idéias estranhas. Também para se tocar piano é preciso não ter filosofia nenhuma). Todos em silêncio, à espera do pensamento essencial. Aí, de repente, alguém fala. Curto. Todos ouvem. Terminada a fala, novo silêncio. Falar logo em seguida seria um grande desrespeito. Pois o outro falou os seus pensamentos, pensamentos que julgava essenciais. Sendo dele, os pensamentos não são meus. São-me estranhos. Comida que é preciso digerir. Digerir leva tempo. É preciso tempo para entender o que o outro falou. Se falo logo a seguir são duas as possibilidades. Primeira: “Fiquei em silêncio só por delicadeza. Na verdade, não ouvi o que você falou. Enquanto você falava eu pensava nas coisas que eu iria falar quando você terminasse sua (tola) fala. Falo como se você não tivesse falado.” Segunda: “Ouvi o que você falou. Mas isso que você falou como novidade eu já pensei há muito tempo. É coisa velha para mim. Tanto que nem preciso pensar sobre o que você falou.” Em ambos os casos estou chamando o outro de tolo. O que é pior que uma bofetada. O longo silêncio quer dizer: “Estou ponderando cuidadosamente tudo aquilo que você falou.” E assim vai a reunião.

Há grupos religiosos cuja liturgia consiste de silêncio. Faz alguns anos passei uma semana num mosteiro na Suíça, Grand Champs. Eu e algumas outras pessoas ali estávamos para, juntos, escrever um livro. Era uma antiga fazenda. Velhas construções, não me esqueço da água no chafariz onde as pombas vinham beber. Havia uma disciplina de silêncio, não total, mas de uma fala mínima. O que me deu enorme prazer às refeições. Não tinha a obrigação de manter uma conversa com meus vizinhos de mesa. Podia comer pensando na comida. Também para comer é preciso não ter filosofia. Não ter obrigação de falar é uma felicidade. Mas logo fui informado de que parte da disciplina do mosteiro era participar da liturgia três vezes por dia: às 7 da manhã, ao meio-dia e às 6 da tarde. Estremeci de medo. Mas obedeci. O lugar sagrado era um velho celeiro, todo de madeira, teto muito alto. Escuro. Haviam aberto buracos na madeira, ali colocando vidros de várias cores. Era uma atmosfera de luz mortiça, iluminado por algumas velas sobre o altar, uma mesa simples com um ícone oriental de Cristo. Uns poucos bancos arranjados em “U” definiam um amplo espaço vazio, no centro, onde quem quisesse podia se assentar numa almofada, sobre um tapete. Cheguei alguns minutos antes da hora marcada. Era um grande silêncio. Muito frio, nuvens escuras cobriam o céu e corriam, levadas por um vento impetuoso que descia dos Alpes. A força do vento era tanta que o velho celeiro torcia e rangia, como se fosse um navio de madeira num mar agitado. O vento batia nas macieiras nuas do pomar e o barulho era como o de ondas que se quebram. Estranhei. Os suíços são sempre pontuais. A liturgia não começava. E ninguém tomava providências. Todos continuavam do mesmo jeito, sem nada fazer. Ninguém que se levantasse para dizer: “Meus irmãos, vamos cantar o hino…” Cinco minutos, dez, quinze. Só depois de vinte minutos é que eu, estúpido, percebi que tudo já se iniciara vinte minutos antes. As pessoas estavam lá para se alimentar de silêncio. E eu comecei a me alimentar de silêncio também. Não basta o silêncio de fora. É preciso silêncio dentro. Ausência de pensamentos. E aí, quando se faz o silêncio dentro, a gente começa a ouvir coisas que não ouvia. Eu comecei a ouvir. Fernando Pessoa conhecia a experiência, e se referia a algo que se ouve nos interstícios das palavras, no lugar onde não há palavras. E música, melodia que não havia e que quando ouvida nos faz chorar. A música acontece no silêncio. É preciso que todos os ruídos cessem. No silêncio, abrem-se as portas de um mundo encantado que mora em nós – como no poema de Mallarmé, A catedral submersa, que Debussy musicou. A alma é uma catedral submersa. No fundo do mar – quem faz mergulho sabe – a boca fica fechada. Somos todos olhos e ouvidos. Me veio agora a idéia de que, talvez, essa seja a essência da experiência religiosa – quando ficamos mudos, sem fala. Aí, livres dos ruídos do falatório e dos saberes da filosofia, ouvimos a melodia que não havia, que de tão linda nos faz chorar. Para mim Deus é isto: a beleza que se ouve no silêncio. Daí a importância de saber ouvir os outros: a beleza mora lá também. Comunhão é quando a beleza do outro e a beleza da gente se juntam num contraponto…

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comentários
  1. ana maria prazeres disse:

    Amei este etxto de Rubem Alves, um dos meus autores preferidos. Não conhecia. Gostei muito também do seu texto. E, pensando bem, ando precisando parar de falar.Tenho falado muito, tenho defendido muito algumas idéias e necessidades reais, porém, algumas vezes sinto que estas falas são usadas por outras pessoas que desejam, mas não conseguem dizer; outras que não querem deixar claro o que pensam, mas que gostam que alguem diga por elas…Como é difícil não dizer nada diante de injustiças, de imposições sem sentido, de incompreensões e de omissões. Atitudes estas, que muitas vezes prejudicam um grupo inteiro,impedem um trabalho bem elaborado, desorganizam sentimentos e causam sofrimentos desnecessários.Ao mesmo tempo, até que ponto é mais importante deixar acontecer, permitir que situações se instalem para que ,então, sentidas, percebidas, sofridas, levem à necessidade de reagir? O “silêncio da alma ” é realmente necessário, mas é este silêncio que nos traz ao mesmo tempo a consciência das coisas e que, muitas vezes, nos leva a dizê-las por se fazerem necessárias. Mas que desassossego isso traz!
    “É preciso não ter filosofia nenhuma”. Isso é mesmo possível na nossa vida comum?

  2. Ela disse:

    OLha,
    me faltava saber que tu também gostas de Rubem Alves.

    escreva prometo escutar . sempre!

  3. Oi Gabriel !

    Excelente e necessário !

    Bjos.

    ;D

  4. Rafaela disse:

    Esse texto traz questões importantes. Escutar é uma sabedoria que poucos conseguem.

    Ah, gosto bastante de Rubem Alves.

  5. Rafaela disse:

    ah, obrigada pelas visitas no meu blog, viu?
    (oquartoemdesordem.blogspot.com)

  6. sentilavras disse:

    Adoooro Rubem Alves, mas não sou daquelas fãs q chupa cu. Gostei da sua abordagem também. Antes de aprender a falar, a gente aprende a escutar. Só q às vezes nos esquecemos de como é importante ouvir.
    Antes de aprender a escrever, a gente aprende a ler. Já aprendi a ler. Ainda estou aprendendo a escrever. Um dia eu chego lá!

  7. Márcio B. S. disse:

    Isso é verdade! Vide o Twitter, um site de relacionamento onde todo mundo só fala, fala, mas ninguém preta atenção ao q os outros dizem… Parace q esse é um mal da sociedade ocidental atual. Nós, profissionais q trabalhamos com a arte da escuta, vemos a diferença de como passamos a compreender uma pessoa quando abrimos os nossos ouvidos a escutar.

  8. Ela disse:

    Vim aqui, na certeza de te escutar, cadê tuuuuuuuuuuuuuuu

  9. Helola disse:

    Puxa… era o que eu precisar ler/escurtar/ouvir!!!
    Obrigada por compartilhar um texto tão bom como este!
    Adorei visitar seu blog. Achei interessantíssimo! Com certeza, aparecerei mais vezes.
    Grande abraço da Lola.

  10. Ariane disse:

    “Eu te vejo”- Avatar
    Ouvi é perceber, para isto é necessario sair de vc mesmo e visitar o outro.
    Entender o desconhecido!

  11. Ana disse:

    Gostei muito do texto de Rubem Alves, pois estou num momento em minha vida que estou procurando ouvir mais e falar menos, (estou cursando psicologia, e como tal preciso aprender a ouvir). Hoje, se escuta tudo mais se ouve bem pouco, (considerando um ouvir, como “dar sentido ao que se ouve”, não simplesmente ouvir). Gosto muito de Rubem Alves e esse artigo sobre escutatória veio enriquecer ainda tudo mais o que eu já li sobre ele.
    Rubem Alves, aquele abraço. rsrsrsr

  12. Elaine Fidelis disse:

    Estava procurando esse texto quando o encontrei em seu blog. Gostei muito das suas reflexões, afinal estou empenhada em desenvolver essa “arte escutatória” em mim e a responder muitas outras questões que você apresentou aqui e que o Rubem nos mostra de forma tão simples e poética. Parabéns pelos seus escritos.

  13. Junior disse:

    Caro Colega,

    Estou encantado com aquela foto que inicia esta página (um lago, uma ponte, um caminho, uma neblina, um outono). Se não for muito importuno, pedireia-lhe para enviá-la ao meu e-mail: jrworlds@hotmail.com.
    Desde já, agradeço pela gentileza da atenção
    Júnior

  14. Espedito Fidelis disse:

    Espedito Fidelis,

    Adoro Rubem Alves.Nada melhor do que ouvir o barulho dos que muitos dizem e não fazem basicamente nada.

    Um forte abraço!

  15. jailson disse:

    Acho engraçado como o “fenomenal” possa ser tão elementar.

  16. Maura de lima silva disse:

    Parabéns pela apresentação de um texto tão lindo! Rubens Alves é um grande escritor, e eu adoro textos que nos leva á reflexão.
    Vivemos hoje na época do barulho. As pessoas na sua grande maioria não suportam o silêncio, ou melhor parecem que temem o silêncio. Daí a dificuldade entender o outro.
    Mais uma vez, parabéns pela escolha do texto!
    abraços

  17. Almir De Borba disse:

    Dele também: ” O tempo e as jabuticabas ” um complementa o outro.

  18. antonio oliveira disse:

    obrigado.

  19. Fatima Rocha disse:

    So se houve bem quando se tem disponibilidade interior.

  20. Adineia Rodrigues disse:

    ola, boa tarde !
    gostaria de fazer um curso de oratória e escitatória, onde poderia fazer?
    agaurdando
    obrigada

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