Arquivo de outubro, 2009

 

Vi minha avó paterna algumas poucas vezes na minha vida. Em todas elas, acompanhava-a um sorriso – daqueles de quem realmente sente o que acontece ao seu redor, um brilho no olhar – daqueles que realmente viveram uma vida intensa, e um carinho que lhe transbordava, e acompanhava todos os seus pequenos gestos, desde a maneira como segurava a mão que lhe acompanhava, até o abraço quente e acolhedor.

Aquela mulher era amor e dedicação, e todo o carinho que se dirigia a ela, a vontade de tê-la por perto,

Ela representou, durante muito tempo, um elo entre mim e o pai que eu não conheci senão pela descrição de outras pessoas. Uma ponte entre mim e um mundo que eu queria ter conhecido, que eu queria que tivesse feito parte do meu mundo. Perdê-la, de certa forma, é me afastar de algo que esteve próximo dele, e, especialmente, é percebê-lo apagá-lo. Mas ele não está presente, então bate, recorrente, a dor das saudades que sempre tivemos, de algo que nunca foi nosso.

Sobra-me tão pouco, às vezes. A vontade de abraçar cada um dos familiares, o medo do enterro, da imagem da morte, de enfrentar certos traumas, de perceber-me irremediavelmente insignificante no que tange o rumo natural de certos acontecimentos.

Sofro, e é puro egoísmo, eu sei, já que ela viveu, foi plena e verdadeira, acreditou e batalhou, e plantou um mundo de atitudes mais solidárias, com mais compaixão e dignidade. Até os últimos dias foi lúcida, e, se eu não pude partilhar mais com ela (como não pude compartilhar com ele), sei que muito do que eu sou hoje foi, sim, conseqüência do que eles ajudaram a plantar.

    Somos tão pequenos, tão pózinhos, e perdemos tanto tempo com coisas tão pouco importantes. Que a dor faça valorizar ainda mais o amor, e que ela esteja sempre presente dentro de nós e na forma como agimos como o mundo…

(e se eu não puder lhe dizer adeus, querida, é só porque me falta a voz, porque tudo o que eu sinto agora me excede, em corpo e alma)