Vai com os anjos, vai em paz…

Publicado: outubro 28, 2009 em Declarações, Reflexões

 

Vi minha avó paterna algumas poucas vezes na minha vida. Em todas elas, acompanhava-a um sorriso – daqueles de quem realmente sente o que acontece ao seu redor, um brilho no olhar – daqueles que realmente viveram uma vida intensa, e um carinho que lhe transbordava, e acompanhava todos os seus pequenos gestos, desde a maneira como segurava a mão que lhe acompanhava, até o abraço quente e acolhedor.

Aquela mulher era amor e dedicação, e todo o carinho que se dirigia a ela, a vontade de tê-la por perto,

Ela representou, durante muito tempo, um elo entre mim e o pai que eu não conheci senão pela descrição de outras pessoas. Uma ponte entre mim e um mundo que eu queria ter conhecido, que eu queria que tivesse feito parte do meu mundo. Perdê-la, de certa forma, é me afastar de algo que esteve próximo dele, e, especialmente, é percebê-lo apagá-lo. Mas ele não está presente, então bate, recorrente, a dor das saudades que sempre tivemos, de algo que nunca foi nosso.

Sobra-me tão pouco, às vezes. A vontade de abraçar cada um dos familiares, o medo do enterro, da imagem da morte, de enfrentar certos traumas, de perceber-me irremediavelmente insignificante no que tange o rumo natural de certos acontecimentos.

Sofro, e é puro egoísmo, eu sei, já que ela viveu, foi plena e verdadeira, acreditou e batalhou, e plantou um mundo de atitudes mais solidárias, com mais compaixão e dignidade. Até os últimos dias foi lúcida, e, se eu não pude partilhar mais com ela (como não pude compartilhar com ele), sei que muito do que eu sou hoje foi, sim, conseqüência do que eles ajudaram a plantar.

    Somos tão pequenos, tão pózinhos, e perdemos tanto tempo com coisas tão pouco importantes. Que a dor faça valorizar ainda mais o amor, e que ela esteja sempre presente dentro de nós e na forma como agimos como o mundo…

(e se eu não puder lhe dizer adeus, querida, é só porque me falta a voz, porque tudo o que eu sinto agora me excede, em corpo e alma)

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comentários
  1. Jac Oliveira disse:

    Entende agora um pouco daquela minha ansiedade? é a ansiedade só conhecida por quem sente essa dor.. a ansiedade de saber que somos assim, pózinhos…

  2. Cátia disse:

    Eu sinto muito de coração.
    Tenho sentido ultimamente um medo terrível de passar pelo que tu estás passando.

    Chora um pouco, e guarda ela pra sempre dentro de ti e externaliza as coisas boas que ela te ensinou.

    carinho!

  3. Marilac disse:

    Querido,
    Entendo bem a sua dor, perdi semana passada uma tia avó de 98 anos muito querida.Lendo suas palavras me identifiquei com seus medos, sentimentos que surgem em momentos assim quando percebemos que muito foge ao nosso controle e por isso é tão importante valorizarmos as pessoas que amamos enquanto as temos por perto.

    Uma grande abraço, com carinho
    Marilac

  4. Rafaela disse:

    Você devia ter uma relação mutio bonita com ela. Pela pessoa bontia que ela era e também pelo elo que ela representava com o que você não conheceu. Pessoas assim, quando partem, nunca ficam apenas como memórias. É sempre mais que isso.

  5. Colombina disse:

    Snif… isso me deixou triste…

    Mas ás vezes penso que se fossemos completamente eternos, se não morressemos, cedo ou tarde a vida ficaria monótona. Ás vezes temo mais a eternidade do que a morte… O.O

  6. bella disse:

    A dor é mesmo inevitável e, até mesmo, necessária para ser catalizadora de tantas reflexões e significados. Pensemos: que bom que ela esteve viva durante esses anos todos para construir essa ponte contigo. Ela, tua avó, se distancia, mas ponte continua, não é? Andando por ela, você ainda enxergará tudo o que já enxergava (talvez até mais coisas importantes agora) e tantas recordações e sonhos de calor. Por causa dessa ponte, outras também foram ganhando força (teus irmãos, teus tios e primos). Que bom que isso foi possível… que todos vocês se permitiram atravessar e enfeitar o caminho dessa ponte e, consequentemente, ressignificando constantemente teu pai dentro de ti.

    Você é uma pessoa linda, Gabi. Seus sentimentos e elaborações tocam cada pedacinho dessa sua amiga aqui. 🙂 conte comigo sempre, sempre, sempre.

  7. sentilavras disse:

    Também estou de luto… Dói, né?
    ;(

  8. Pedro Serrano disse:

    Gabriel,
    Que coisa boa descobrir seu blog, logo no último dia desse ano que se vai. Suas palavras são precisas, bonitas – capazes de levar o leitor à reflexão e ao questionamento.
    Gostei muito desse post.
    Parabéns!
    Abraço,
    Pedrinho.

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