Arquivo de fevereiro, 2010

Estamos aqui (e onde queremos estar?)

Publicado: fevereiro 16, 2010 em Política, Reflexões

Acordar, abrir os olhos e as janelas, olhar para fora, respirar fundo. Estamos mesmo aqui.

Não sabemos (e como somos distraídos!), mas a todo instante escolhemos: mudar o mundo ou não? (começa com o bom dia, você escolhe: gentileza ou indiferença? Prestar atenção ou ignorar? Se informar ou alienar? Estar disponível às paixões ou às apatias? Pensar em política ou em jogos e BBB?).

Ninguém é infalível ou perfeito. Merecemos descanso. Mas não é impressionante o quanto cada vez menos nos importamos com o quão egoísta as pessoas estão se tornando?

Estamos atentos àqueles que nos são importantes? Quão tolerante somos com as nossas pequenas diferenças? Quão intolerantes somos com as diferenças que precisam ser combatidas? Cade nossa sensibilidade quanto às necessidades alheias, e a nossa combatividade pelos nossos valores e ideais? Vamos, vamos, eu moro em uma cidade cinza, mas ainda acredito na força do azul e no vermelho dos corações. Ideologias se vendem, uma voz repete, insistentemente: se quer fazer mais pelo seu país, consuma! Lute por um emprego melhor, ganhe um salário maior, pague seus impostos e estará contribuindo para um futuro melhor da nação. Não me basta ser esse “bom” cidadão. O que fazer, então?

Vamos pensar nosso mundo! Vamos pensar (e sentir mais) nossos sentimentos! Vamos respeitar nossa individualidade, sem que isso represente a intolerância às diferenças e a opressão de nossos iguais. Não é aceitável que o nosso modo de viver dependa de um sistema reprodutor de tanta injustiça e indiferença. Vamos buscar alternativas, fazer diferente, ser um pouco mais do que nos é exigido (mas em direção oposta!). Podemos reproduzir o que não concordamos ou tentar produzir algo que realmente seja digno de ser partilhado.

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Eu não sou mero espectador
Não vou ver pelo vidro,
Nem pelos olhos daqueles que não estão sentindo

Dos meus caminhos? Eu sou diretor

Eu quero mais é vida
É sentimento no peito
É evitar o estreito
É encontrar uma saída

Eu quero é verdade
E se vier a dor
Desde que traga a inquietude
E me ajude a contrapor
A todo este horror

Que seja bem vinda!

(Quando a miséria vai parar de me ferir?
O dia que não houver miséria
Ou o dia que eu não existir)

Queremos mais paz e amor
Mas a paz para os justos (e para aqueles que sentem)
Só é possível em um mundo de justiça

Amor de verdade?
Só com igualdade
(Quando não seremos reflexos,
Nem maiores, nem menores
A reproduzir o status quo!
E amar superficialmente
Sem gosto de gente
Sem paixão e sem ardor!)

A utopia é meu norte
E os sonhos meu cimento
Meu futuro não é da sorte
Construirei meu movimento


p.s.: se tiverem sugestão de nome para essa pseudo-letra-de-rock’n’roll, serão muito bem vindas!

Um outro mundo é possível? Mais do que isso! Outro mundo é urgentemente necessário!


Ocorreu em Porto Alegre, entre os dias 25 a 29 de janeiro, um dos núcleos de eventos da 10ª edição do Fórum Social Mundial para discutir as possibilidades de mudança no mundo. Mais do que o descritivo desse encontro e dos ótimos debates que pude observar, existem algumas considerações que gostaria de partilhar, sobre as premissas da existência e fundamentos do FSM.

Você está satisfeito com o mundo em que vive? Para você, é indiferente que tantas pessoas se encontrem na miséria? E que o dinheiro seja um dos principais determinantes das condições materiais em que alguém pode viver?


Não é suficiente, para a mudança, que apenas ouçamos a palavra “não” três vezes nas respostas acimas. Afinal, que o mundo não anda lá essas coisas, pouca gente duvida. Miséria, ignorância, violência, egoísmo, consumismo. Não há redoma ou alienação que proteja qualquer um em lidar com esta realidade.

Agora, como lidar com esta realidade é o que diferencia a maioria das pessoas. Existem, dentro de um universo de possibilidade, algumas mais frequentes: (i) a alienação e acomodação, através da qual as pessoas se distraem com coisas que as impeçam de pensar sobre as questões sociais do mundo; (ii) a aceitação de que o melhor sistema possível é o vigente e que, embora o mundo esteja longe do ideal, se é isso o que temos é isso o que de melhor podemos ter para agora, e não adianta se esforçar em alguma luta, porque as coisas acontecem no seu tempo certo, naturalmente, sem que as pessoas precisem agir em determinada direção – e isso envolve também esforços e pequenas mudanças – como votar em um político que nos parece gentil e humano, dar esmolas na rua, não sonegar impostos; e (iii) a indignação diante das injustiças, o incômodo, a angústia. Estes são os combustíveis fundamentais para a inquietação que simplesmente não nos permite ficar parados e em paz com nossa consciência.


O primeiro passo, portanto, é o sentir construtivo. E esta é a primeira grande contribuição do FSM: juntar em um mesmo espaço as pessoas que sentem necessidade de lutar pelas mudanças. E a grande sacada é que ele nos demonstra que, apesar de termos histórias, ideologias e caminhos diferentes, podemos encontrar, dentro da diferença, uma grandeza e riqueza que inundam a nós próprios!


Isso me faz pensar tanto, e sobre tanta coisa, que fica difícil definir um foco. Portanto, antes de expor quaisquer outros pontos específicos das coisas que ouvi e vivi neste FSM, queria sugerir a reflexão:

Com qual intensidade e determinação sentimos as mudanças que pensamos serem necessárias ao mundo?