Arquivo de dezembro, 2011

Temos a incrível mania de atribuir ao nosso esforço, capacidade e vocação tudo aquilo que temos de melhor e mais bonito, enquanto aquilo que nos é feio, mesquinho ou egoísta é fruto de um passado complicado, circunstâncias pessoais com as quais não tivemos maturidade suficiente para lidar ou relações familiares complexas que deixaram sequelas e cicatrizes.

É verdade que, para o bem ou para o mal, somos frutos de nossas condições objetivas que dialeticamente se contrapõem com nossa subjetiva individualidade. E é exatamente essa síntese, capaz de tantos improváveis resultados, que nos caracteriza como seres humanos únicos, e nos permite ansiar que as coisas sejam diferentes daquilo que são hoje!

Mas se já somos capazes de reivindicar tudo aquilo que achamos certo, por que será que ainda não somos capazes de enxergar que os nossos medos, inseguranças e desvios também são nossa responsabilidade? Entender e justificar é possível, sempre poderemos encontrar motivos, construir pretextos, mas a questão é até quando vamos aceitar conviver com isso? Não se trata de achar ser possível a busca pela perfeição, de querer exorcizar cada defeito. Clarice nos ensinou que cortar os próprios defeitos pode ser perigoso, já que eles também são nossa base de sustentação. Mas, mais importante do que nos aceitar como somos, é não nos deixarmos resignar com aquilo que machuca e nos afasta dos sonhos e ideais. Como diria um poeta mágico (o da música logo abaixo), uma questão de “não acomodar com o que incomoda”.