Arquivo de abril, 2012

Sobre a primeira semana em Angola

Publicado: abril 15, 2012 em Angola
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Estive pensando sobre como tudo isso começou. Em certos momentos, me parece que toda necessidade de se viajar para um lugar distante, longe de todos que você conhece, é de certa forma uma fuga. Em outros momentos, penso que se acomodar onde estamos, na segurança de um cotidiano que parece estar ao nosso controle, essa é a verdadeira fuga.

Talvez a verdade é que passamos a vida a fugir e a nos encontrar. Se é assim, vamos fazer dessa fuga o melhor encontro que se possa ter.

Isso começou quando a empresa onde trabalho comprou uma empresa em Angola. Ou um projeto de empresa, a julgar pelos estágios iniciais da obra. Estava no momento mais importante da minha vida: lutando pelos meus ideais, crescendo profissionalmente, convivendo com pessoas que gostava muito. Uma vida muito confortável. Na luta pela sobrevivência financeira, mas este é o nosso mundo, quantos não estão ralando para fechar as contas no fim do mês?

Existe um momento na nossa vida em que nos tornamos, de certa forma, independentes de nossa família. Somos idealistas e sonhadores, mas começamos a colocar o pé no chão. Passam-se alguns anos, e parece que tudo caminha de volta à dependência, substituída agora por outras formas, mas com a mesma estrutura. Era assim que eu me sentia, aos 26 anos. As raízes a fincar, a idéia de me afastar a corroer cada vez mais. E, ao mesmo tempo, a certeza de que devemos lutar para sermos maiores, para não nos levar pela inércia. As pessoas encontram diferentes maneiras de exercer essa luta, não existem placas de “caminho certo” ou “caminho errado”. Mas a minha maneira foi insistir com meu chefe de que deveria me transferir para esse projeto. As últimas duas semanas foram, muito provavelmente, as melhores da minha vida. Fiquei pensando no que as pessoas que estão a partir sentem. A necessidade de se viver tudo, intensamente, de estar disposto e disponível para todos os convites, de experimentar as pessoas, demonstrar carinho, partilhar. É incrível e intenso. Se eu pudesse, queria que todos os dias fossem como aqueles. Queria falar mais sobre isso, sobre o show da minha vida (nessa breve carreira artística de 3 shows), sobre Pink Floyd e Foo Fighters, sobre todas e todos, os reencontros, os presentes, as lembranças, tudo. Mas sinto que o tempo passou, e agora tenho que me entregar para o próximo momento. O aeroporto, o significado de ter que virar as costas para a sua família e caminhar na direção oposta. Não é algo que eu já tenha sentido antes. A sensação de sair do lugar ao qual pertenceu e ir em direção ao desconhecido não é algo que você possa passar indiferente. Isso te transforma.

O primeiro choque cultural acontece logo depois de entrar no avião. A Companhia Aérea é angolana, a comissão de bordo é angolana, e cerca da metade dos passageiros é angolana. E aí você percebe que não é o lugar onde você está, é o contexto. Você deixou o Brasil antes mesmo do avião decolar.

Durante o vôo, tive que trocar de assento, e tentando dizê-lo à pessoa que sentava ao meu lado, soube (na prática) o que já sabia (na idéia): a língua portuguesa não existe. São as línguas portuguesas. Não conseguimos nos entender tão bem, mas vamos nos acostumando. Então pus a dividir o meu tempo em duas coisas: assistir aos filmes quando a angústia aumentava (este é um recurso que foi recorrente durante toda a semana por aqui, nota-se que ainda não estou completamente preparado para enfrentar as coisas que gostaria de enfrentar), e observar a todos no vôo, nos momentos de maior serenidade interna.

E a real é que a minha primeira sensação é de que as pessoas eram grossas. Não havia cortesia, desde o oferecer da bala, até o passar com um cabo que não entendia o que era, bem como a paciência para falar devagar com alguém que estava se esforçando para te entender. Isso foi um choque, porque estive acostumado há muito ao atendimento quase teatral ao se voar no Brasil, em que você não consegue dar 5 passos dentro do avião sem alguém da comissão de bordo te dar bom dia, boa tarde, boa noite ou dizer o quanto você é importante para o vôo, para a companhia aérea, ou talvez até para a vida de todos que estavam ali. Depois fiquei pensando no que era melhor, aquela honestidade que beirava à indiferença, ou aquele atendimento que soava à hipocrisia. Enfim, o atendimento no vôo não era sua melhor virtude, mas vi o primeiro dos muitos sorrisos que tem me impressionado muito por aqui, de um dos comissários que, após passar carrancudo a me oferecer balas, desfaleceu-se em sorrisos por uma pequena criança que as aceitava com empolgação.

O aeroporto foi o meu primeiro grande trauma. Tudo estava a correr bem, mas minha guitarra não aparecia de jeito nenhum. As pessoas começavam a ir embora, tudo começava a se esvaziar. Quando fui conversar com um funcionário, ele saiu por uma porta e, 30 segundos depois, lá estava minha guitarra. Agradeci e ele continuou a aguardar “sim, agora o cafezinho do rapaz que encontrou sua guitarra”. Já havia sido alertado sobre a corrupção em Angola (assim como bem a conhecemos no Brasil), mas não deixa de ser impactante vivenciar essa situação, especialmente nas primeiras horas. Sem muito entusiasmo para argumentar em um país novo, sem entender a dinâmica de funcionamento do local, dei 20 dólares e segui. Dez passos adiante, sou abordado por outro funcionário “ei, tens remédio, perfumes consigo? É melhor que eu vos ajude a passar na alfândega”. Como só havia, agora, nota de cem dólares na minha carteira, ousei ser um pouco mais corajoso, e dizer que não havia nada nas minhas malas que não fosse legal. Em seguida, ele disse que eu poderia ter problemas, mas foi interpelado em seguida por outro funcionário do aeroporto, e foram em direção a outra pessoa.

A cidade, Luanda, é de uma desigualdade enorme. Pela madrugada, no caminho até o hotel, alternavam-se bairros em que a iluminação era farta, e bairros que estavam em completo breu. Soube depois que boa parte das casas não são abastecidas por eletricidade, e funcionam a gerador. A boa notícia é que o combustível por aqui é muito barato (Angola é um grande produtor – e exportador – de petróleo). A gasolina, por sinal, é mais barata que água mineral. A população depende disso, afinal.

Nos dias seguintes, mergulhei no trabalho. Por necessidades profissionais (um milhão de coisas para fazer), mas também por necessidades pessoais (ainda não há tempo para saudade real, mas a perspectiva de que ela será inevitável já faz certos receios surgirem). O transporte público, perto de onde trabalhei, beira o inexistente. Fiquei ilhado entre trabalho e hotel, me limitando a passeios noturnos pelo bairro, e atividades junto às pessoas com quem agora trabalho (e que, diga-se por sinal, foram extremamente receptivas). É engraçado como as pessoas, distante de suas origens, parecem muito mais unidas, solícitas e solidárias. Não poderíamos ser sempre assim?

Me perguntaram muito sobre como a cidade. A resposta mais honesta que eu posso dar é: não sei. Conheci muito pouco, muito pouco mesmo, e apenas da parte mais “rica” da cidade. As impressões que eu posso compartilhar são: nunca vi tantos carros caros na minha vida (são milhares). Acho que vi mais carros caríssimos aqui em uma semana do que em São Paulo por toda a minha vida. Em Angola não existem carros populares, existem carros de milionários. Os outros carros são aqueles que você se pergunta sobre como ainda estão andando, de tão batidos e velhos que se encontram. O trânsito, alias, é surreal, deixa São Paulo e Rio de Janeiro no chinelo de uma forma insana. Toca muita música brasileira, muita mesmo (não aguento mais ouvir ai se eu te pego). Inclusive teve um casamento no hotel onde estou hospedado, e passei a última madrugada ouvindo Roberto Carlos, Latino, Molejo e similares.

As pessoas, bem, essa é a parte mais difícil. Não tem sido fácil estabelecer contato. As minhas únicas tentativas de sucesso foram ao falar de futebol e de música. Parece que isso liga muito às pessoas. Mas sinto que estive, nesta primeira semana, muito mais a observar do que interagir. É como se eu estivesse aqui, mas aqui não estivesse completamente em mim. Enfim. Sei que você tem que se despir de certos preconceitos se quer entrar em contato com uma cultura diferente da sua. Alias, não apenas preconceitos, mas não adianta querer impor os seus valores, pura e simplesmente. Essa semana a meta é estabelecer mais contatos. Final de semana que vem quero visitar os museus daqui. Já é hora de desfazer minhas malas, e aproveitar bem as semanas que tenho em Luanda antes de viajar para o interior, onde vou morar pelos próximos dois anos.

Vista do Trabalho (e meu reflexo)