Arquivo de maio, 2012

Tenho me perguntado muito sobre o que as pessoas precisam para mudar. Um grande choque? A tristeza? A angústia? O amor? No fundo, sempre parece que estamos esperando que algo aconteça ao nosso redor para que dessa forma possamos mudar o que está dentro e nos incomoda. Soa como um certo comodismo.

Um dos meus namoros terminou de forma muito esquisita. Ela dizia que me amava, que éramos feitos um para o outro, mas que naquele momento eu não cabia na vida dela. Ela precisava mudar: de curso, de casa, de namorado. Foi destruidor e eu realmente não entendi o que aconteceu até pouco tempo atrás.

É que às vezes, para termos força para mexer naquilo que está dentro de nós, precisamos mudar drasticamente o que está fora. Estar longe do meu país, dos meus amigos e da minha família e de boa parte das minhas lutas e sonhos é, com certeza, uma forma de me impor uma mudança interna, cuja brisa já posso vislumbrar.

E, como tem sido a viagem até então?

Diferente do inicialmente planejado, minha estadia em Luanda (capital) foi prorrogada, e devo ficar por aqui por mais de algumas semanas. Luanda é uma cidade de múltiplas realidades. Para se ter uma idéia, pesquisando os preços com conversas (deste motorista de taxi ilegal, corporativo, secretarias, advogados, gerentes financeiros) e o preço da comida varia entre até 5 dólares (ou 500 kwanzas) nas barracas da rua, com carvão e panelas gigantes, ou acima de 20 dólares (ou 2000 kwanzas) em qualquer restaurante. É um mundo as pessoas muito pobres tentam sobreviver, e para os outros não faz muita diferença o quanto vão pagar para comer. Esta é só mais uma das ilustrações sobre as desigualdades sociais, que não deixaram de me chocar em nenhum dos 30 dias que acabo de completar por aqui.

O cotidiano tem sido, ainda, de prestar atenção. Na conversa da moça da rua, puxando papo com as pessoas que trabalham no restaurante. Conheci um estudante de engenharia, chamado Zinho: ele trabalha das 05 às 18 horas num taxi clandestino, 6 dias por semana, para conseguir pagar a faculdade e ajudar nas contas da casa da mãe, com quem mora. É impressionante essa capacidade do ser humano de lutar e fazer o que for preciso. E eu não vejo desespero em seu rosto. Digo, a gente tem crise por tanta coisa: porque pegamos trânsito, porque ela não ligou de volta. Não acredito naquela história de que “temos que agradecer: olha como tem gente pior que a gente – fique feliz” porque acho que este é um conceito extremamente pessoal e subjetivo, mas realmente repenso, repenso e repenso sobre as minhas capacidades, dessa vitimização maluca que colocamos a nós mesmos, de querermos tanto e nos dispor em geral tão pouco. Enfim, o Zinho é um cara que, além de me mostrar a cidade, as praias, os guetos do centro, as baladas, tem me dado esperanças quanto sobre as coisas em Angola.

O que antes parecia resignação, agora me parece uma preocupação imediata com a sobrevivência. Começo a entender um pouco melhor as coisas aqui. Não é que as pessoas não se importem com essa desigualdade, é só porque elas precisam sobreviver. A guerra civil não é uma realidade da qual a maior parte das pessoas vivas aqui não tenham feito parte. Quase todos os homens com mais de 30 anos serviram ao exército durante a guerra. Boa parte deles entrou com 14 anos. Eu tava vendo o Roberto Baggio perder um pênalti e o Brasil ser campeão mundial. Eles tiveram que se alistar no exército porque senão as chances de serem mortos (ou morrerem isolados) eram extremamente prováveis. Temos formas de pensar diferente com relação às instabilidades políticas, grandes mudanças, agitações. As pessoas em geral querem a vida antes da justiça. Penso que existem alguns passos que não podemos pular. Passos que são nossos, e que eu não poderia dar por eles, e nem eles poderiam dar por mim.

É curiosa essa sensação de “observação participante”. Sinto que Luanda é uma cidade onde as pessoas podem ficar todo o tempo distraídas, do seu escritório ao seu condomínio, dos seus restaurantes aos seus clubes privados. Mas pode ser o lugar em que você pode aprender um pouco mais sobre uma realidade completamente diferente da sua e admirar sorrisos dos mais bonitos com os quais já cruzou. Você pode olhar pela janela e só enxergar a paz, mas “paz sem voz não é paz, é medo”.

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