Arquivo de junho, 2012

Como você está?

Publicado: junho 15, 2012 em Angola, Reflexões

Será que em determinado momento da vida nos distraímos pelo nosso cotidiano de obrigações, por já ter tantas expectativas quanto aos outros (e tanto trabalho para atender às expectativas do outro), compromissos profissionais, estudantis e amorosos, que já nos sentimos tão cheios de nós mesmos que não existe espaço para o novo? Fico prestando atenção para saber se ainda estou aberto, para pensar (e repensar) as minhas convicções filosóficas e políticas, para descobrir (e aprofundar) as pessoas que me parecem interessantes e especiais, para não me distrair com relação aos bons amigos que a vida já me aproximou, para me permitir sentir paixões sem medos, expectativas ou ciúmes. Se me entender hoje parece mais fácil do que já foi no meu passado, me transformar tem sido cada vez mais difícil, e necessitado mudanças abruptas no meu modo de viver, e acredito que este é um dos motivos pelos quais estou aqui.

E aí me perguntam: “como você vai?”

Não é estranho que possamos descrever como nos sentimos com um “tudo bem”, “tudo indo” (uma forma educada de dizer “tudo mal”) ou “mais ou menos” (uma forma educada de dizer “tudo muito mal”)?

Os dias tem sido de sentimentos intensos. As novidades me atraem, e eu sinto um prazer enorme em descobrir mais sobre outras culturas. Às vezes me pego prestando atenção nas conversas ao meu redor. As pessoas em Angola falam de forma tão enfática! Não existe pretensa neutralidade. Elas parecem ou muito inconformadas, ou muito felizes, ou muito bravas, ou muito alegres. Sempre muito.

Mas a miséria me consome. E ela está presente todos os dias, na frente da minha casa, na estrada, nas pessoas procurando emprego. As casas improvisadas de barro e madeira, a ausência de qualquer saneamento básico, as crianças brincando no meio do lixo, pedindo comida na saída do supermercado. Até o que eu não vejo machuca: não vi em Cacuso um idoso sequer!

O que eu sinto, enfim, não cabe em uma resposta retórica de uma linha. Sinto que não sentia o tamanho do mundo como agora, porque mesmo sabendo de toda essa diversidade (e de muitas outras), tem coisas que a gente só sente quando pode entrar em contato, tocar, sentir o cheiro, marcar a retina.

E se não me sinto feliz a maior parte do tempo, também não me sinto triste a maior parte do tempo, mas isso não significa, de forma alguma, que esteja morno. Isto está muito longe de ser um “não sentir”. Explode dentro de mim uma intensidade que não consigo definir, mas parece algo como uma fome recém descoberta, uma necessidade que o cotidiano anterior escondia de forma tão eficaz, de pisar no chão, de prestar atenção em tudo o que acontece ao meu redor, de perceber os cheiros e cores, de descobrir o que as pessoas estão pensando, sentindo, como elas enxergam a sua própria história, como elas interpretam às limitações e sofrimentos aos quais estão tão expostas… então, é assim que estou.

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Nas Margens do Rio Kwanza

Publicado: junho 2, 2012 em Angola

Um céu limpo, uma estrada de terra, alguns vilarejos pelo caminho. Qual é a régua que usamos para medir o tamanho de nossa vida? As nossas experiências? Parece que quando saímos da caixa vivemos mais. Não é que seja necessário viajar, estar distante. Parados no farol, podemos olhar ao redor e encontrar diversos e complexos mundos à espreita. Mas é tão fácil nos distrair: com a música, com o jantar que nos aguarda, com os programas do final de semana.

Quando viajamos para um lugar completamente novo, no entanto, este lugar tem toda a nossa atenção. O primeiro olhar é quase sempre o olhar mais curioso, e por isso a primeira impressão é algo que tem tanto impacto, que nos afeta tanto. E que assim seja.

Ao chegar ao Rio Kwanza, um êxtase de sentimentos e sensações que pareciam ser a síntese do que tenho experimentado na África: um misto de admiração e sofrimento, de deslumbramento e choque, de revolta e respeito, a sensação de não ter uma resposta, de não conseguir sequer imaginar uma resposta.

Pela margem do Rio a beleza e a violência caminham de forma bem próxima. Como pode um povo ser feliz e tão miserável ao mesmo tempo? Neste momento, estava pensando se a miséria realmente não era um conceito que eu deveria revisitar, se eu não estaria (como quase todos que visitam a África) sendo etnocêntrico, querendo que os outros se comportem de acordo com o que eu estou habituado. Abrimos a janela, demos alguns passos, mas…

O Rio Kwanza é o de maior extensão em Angola. É sinônimo, para muitos, de garantia à vida, já que no interior do país praticamente não existe água encanada, e em certas regiões não há chuva por diversos meses. É o rio da agricultura, mas é também a água da casa, do banho, do lavar a roupa e do final de semana com os amigos. Visitamos um trecho do rio que se encontra na Província de Malanje. A vista, a princípio impressionante, contrasta com o lixo que se observa de perto (garrafas de cerveja, água, plásticos diversos e toda a sorte de lixo-turístico que poderia existir num lugar) e com o cheiro de urina próximo a algumas árvores e caminhos. Ao subir por uma trilha, uma pequena criança, de 9 anos, muito abatida e suja de barro, com o nariz escorrendo, o respirar cansado. A julgar pela sua respiração, tive impressão de que ela tinha bronquite (e lembrei do quanto me doía ter que fazer as inalações quando pequeno). Ela disse algo que eu não consegui entender na primeira e na segunda vez. Talvez estejamos por demais acostumados a encaixar os sons a sentidos pré concebidos dentro de nós. E por mais que aqueles sons se refiram a palavras que conhecemos, não entendemos. Depois de não entender por duas vezes, me abaixar à altura dos olhos do pequeno, eu consegui ouvi-lo dizer “você quer ser meu amigo?”.

Fico pensando naquelas situações em que você tem que responder algo, mas nenhuma resposta possível faria sentido. Tal como não entendia a pergunta, também não entendia o significado de qualquer resposta que poderia dar, mas disse que sim. E a partir deste momento, ele passou a me acompanhar por toda a trilha, apontando para o caminho, dizendo em quais lugares eu corria risco de escorregar. Não conseguimos estabelecer muita comunicação para além de suas orientações sobre o caminho.

Tínhamos mais uma semelhança além da bronquite que tive também quando criança. Perguntei se ele queria tirar uma foto, e ele rapidamente chacoalhou a cabeça em um enfático sim. Apesar do entusiasmo do sim, não há sorrisos nesta foto.

As paisagens seriam deslumbrantes se aquilo fosse um filme. Mas não era, meu companheiro era doente e cansado, o caminho sujo e mal cheiroso. As pessoas-turistas passavam apressadas, e por um momento eu me angustiei como estavam ansiosas por passar por isso sem de fato vivenciar. Era importante correr, tirar fotos incríveis, registrar o momento, porque certamente nunca mais voltariam para lá, e duvido que tenham sequer gostado desta visita.

Ao voltar para o carro e me despedir do meu novo amigo, descobri que todos meus companheiros de viagem também tinham novos companheiros, para os quais estavam dando algum dólares. Entrei no carro para buscar a minha carteira, entendendo que aquela era a forma que a criança encontrou para sobreviver junto à sua família, mas antes que me virasse novamente cerca de 20 crianças já cercavam o carro e começaram um empurra empurra para, quem sabe, com muita sorte, receber alguns dólares destes turistas. Ter 20 crianças ao seu redor dizendo “fome, tenho fome”, passando a mão pela barriga e pedindo um dólar, não é uma situação sobre a qual eu tenha qualquer palavra para descrever.

Isso realmente me machucou, mas existem feridas que abrem e que temos de deixar sangrar. O Rio Kwanza tornou o sonhar, a partir daquele dia, uma tarefa um pouco mais difícil…