Nas Margens do Rio Kwanza

Publicado: junho 2, 2012 em Angola

Um céu limpo, uma estrada de terra, alguns vilarejos pelo caminho. Qual é a régua que usamos para medir o tamanho de nossa vida? As nossas experiências? Parece que quando saímos da caixa vivemos mais. Não é que seja necessário viajar, estar distante. Parados no farol, podemos olhar ao redor e encontrar diversos e complexos mundos à espreita. Mas é tão fácil nos distrair: com a música, com o jantar que nos aguarda, com os programas do final de semana.

Quando viajamos para um lugar completamente novo, no entanto, este lugar tem toda a nossa atenção. O primeiro olhar é quase sempre o olhar mais curioso, e por isso a primeira impressão é algo que tem tanto impacto, que nos afeta tanto. E que assim seja.

Ao chegar ao Rio Kwanza, um êxtase de sentimentos e sensações que pareciam ser a síntese do que tenho experimentado na África: um misto de admiração e sofrimento, de deslumbramento e choque, de revolta e respeito, a sensação de não ter uma resposta, de não conseguir sequer imaginar uma resposta.

Pela margem do Rio a beleza e a violência caminham de forma bem próxima. Como pode um povo ser feliz e tão miserável ao mesmo tempo? Neste momento, estava pensando se a miséria realmente não era um conceito que eu deveria revisitar, se eu não estaria (como quase todos que visitam a África) sendo etnocêntrico, querendo que os outros se comportem de acordo com o que eu estou habituado. Abrimos a janela, demos alguns passos, mas…

O Rio Kwanza é o de maior extensão em Angola. É sinônimo, para muitos, de garantia à vida, já que no interior do país praticamente não existe água encanada, e em certas regiões não há chuva por diversos meses. É o rio da agricultura, mas é também a água da casa, do banho, do lavar a roupa e do final de semana com os amigos. Visitamos um trecho do rio que se encontra na Província de Malanje. A vista, a princípio impressionante, contrasta com o lixo que se observa de perto (garrafas de cerveja, água, plásticos diversos e toda a sorte de lixo-turístico que poderia existir num lugar) e com o cheiro de urina próximo a algumas árvores e caminhos. Ao subir por uma trilha, uma pequena criança, de 9 anos, muito abatida e suja de barro, com o nariz escorrendo, o respirar cansado. A julgar pela sua respiração, tive impressão de que ela tinha bronquite (e lembrei do quanto me doía ter que fazer as inalações quando pequeno). Ela disse algo que eu não consegui entender na primeira e na segunda vez. Talvez estejamos por demais acostumados a encaixar os sons a sentidos pré concebidos dentro de nós. E por mais que aqueles sons se refiram a palavras que conhecemos, não entendemos. Depois de não entender por duas vezes, me abaixar à altura dos olhos do pequeno, eu consegui ouvi-lo dizer “você quer ser meu amigo?”.

Fico pensando naquelas situações em que você tem que responder algo, mas nenhuma resposta possível faria sentido. Tal como não entendia a pergunta, também não entendia o significado de qualquer resposta que poderia dar, mas disse que sim. E a partir deste momento, ele passou a me acompanhar por toda a trilha, apontando para o caminho, dizendo em quais lugares eu corria risco de escorregar. Não conseguimos estabelecer muita comunicação para além de suas orientações sobre o caminho.

Tínhamos mais uma semelhança além da bronquite que tive também quando criança. Perguntei se ele queria tirar uma foto, e ele rapidamente chacoalhou a cabeça em um enfático sim. Apesar do entusiasmo do sim, não há sorrisos nesta foto.

As paisagens seriam deslumbrantes se aquilo fosse um filme. Mas não era, meu companheiro era doente e cansado, o caminho sujo e mal cheiroso. As pessoas-turistas passavam apressadas, e por um momento eu me angustiei como estavam ansiosas por passar por isso sem de fato vivenciar. Era importante correr, tirar fotos incríveis, registrar o momento, porque certamente nunca mais voltariam para lá, e duvido que tenham sequer gostado desta visita.

Ao voltar para o carro e me despedir do meu novo amigo, descobri que todos meus companheiros de viagem também tinham novos companheiros, para os quais estavam dando algum dólares. Entrei no carro para buscar a minha carteira, entendendo que aquela era a forma que a criança encontrou para sobreviver junto à sua família, mas antes que me virasse novamente cerca de 20 crianças já cercavam o carro e começaram um empurra empurra para, quem sabe, com muita sorte, receber alguns dólares destes turistas. Ter 20 crianças ao seu redor dizendo “fome, tenho fome”, passando a mão pela barriga e pedindo um dólar, não é uma situação sobre a qual eu tenha qualquer palavra para descrever.

Isso realmente me machucou, mas existem feridas que abrem e que temos de deixar sangrar. O Rio Kwanza tornou o sonhar, a partir daquele dia, uma tarefa um pouco mais difícil…

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comentários
  1. Verônica Almeida disse:

    Não ter respostas e soluções para o sofrimento alheio dói. Mas viver cada cenário que se apresenta em sua retina é essencial!

    Parabéns pela consciência que sempre teve, por tudo o que conquistou e continua conquistando, pela sede de encontrar resposta (mesmo quando quase não há esperança) e por ser uma destas pessoas com muitos ideais no coração!

  2. Michele disse:

    OLá!
    Creio que este sentimento de sofrer com o sofrimento alheio é compartilhado por muitos de nós. Talvez o cenário seja diferente mas a presença de pessoas necessitadas e esse sentimento de incapacidade diante desta desigualdade social seja o mesmo.
    Quando comecei a ler o texto referente ao rio que vc menciona, fiquei imaginando como deve ser frustrante ver as esperanças de um povo depositada em um rio, mas ao mesmo tempo ver a alegria e a superação de um povo que tem tão pouco e consegue não se deixar abater pelos problemas.
    Aos poucos a gnte vai descobrindo que diante da vida o maior miserável é aquele que não tem um pouco de esperança para compatilhar com quem tanto precisa.
    Abraço.

  3. seu texto encheu meus olhos de água.
    me dói muito ler coisas sobre a África (sempre doeu), mas tento imaginar o quanto deve doer mais estar aí, ter conhecimento sobre o porquê tanta gente ali vive nessa situação, e nada poder fazer. Ainda assim, acho que não consigo.
    Muita força, Gabis! É o mínimo que vc precisa ter. E o máximo que posso te desejar.

    • Gabriel disse:

      Pois é, Fê. As angústias são constantes, mas é parte da experiência necessária para tudo o que acredito. Enfim, é encarar isso de peito aberto, tentar digerir, tornar as coisas construtivas, me deixar marcar não por masoquismo, mas por vontade de sentir o mundo. Não tem sido fácil, não tenho me sentido sempre feliz, mas me sinto realizado por poder ter essa experiência.

      Obrigado pela mensagem, moça. Beijos!

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