Sobre Nicole Bahls, Gerald Thomas e a Cultura do Estupro

Publicado: abril 16, 2013 em Sem-categoria

Não é a primeira vez (e não será a última) que a mesma mídia que reproduz cotidianamente os padrões de opressão de gênero vai usar da “ciência”, o que há de mais “neutro” e “imparcial”, para tentar nos convencer de que uma agressão não é uma agressão.

Após a violência sexual cometida pelo tal de Gerald Thomas, que colocou (sem consentimento) a mão por baixo do vestido da Nicole Bahls, o programa televisivo Pânico chamou Jacob Pinheiro Goldberg para dizer que:

“Cada pessoa projeta numa cena de provocação suas próprias emoções. Tem gente que vai se sentir profundamente atingida, e é um direito deste indivíduo, e outros simplesmente vão achar graça, que me parece, o objetivo de Gerald”. E depois, ainda complementa com outra estupidez: “Essa cena mostra que existe uma relação entre Nicole e Gerald de parceria. Os dois estão participando de uma cena. Não se pode considerar que o Gerald tenha sido vilão ou tenha agredido a Nicole”

Vamos esclarecer algumas coisas: o discurso do Goldberg nada tem de científico, muito menos de imparcial. Dizer que o que as mulheres (e a própria Nicole) sentiram com relação a essa violência é uma “projeção” de suas próprias emoções não é nada mais do que fazer o que a sociedade sempre faz: colocar a culpa da violência na vítima. Não satisfeitos em responsabilizá-la pelo fato em si (afinal, ela aceitou participar daquela cena, não é mesmo?), ainda queremos culpar a vítima pela sua indignação, pelo que ela SENTE diante de tal ameaça? Quer dizer que é PROJEÇÃO de uma mulher se sentir violentada por um cara que coloca a mão por baixo do seu vestido SEM o seu consentimento? Ou dizer que é PROJEÇÃO que as (e os) feministas se sintam indignados com essa agressão?

Novamente, o psicólogo diz que estão participando de uma “cena”, um “jogo teatral” ao qual os dois se submeteram. Mesma porcaria de sempre de uma sociedade que quer ensinar a mulher a não ser estuprada quando deveria ensinar o homem a não estuprar. Ou seja, se você é mulher, se você está usando um vestido sexy, e se você participa de um programa de humor, você “se sujeitou” a estas regras. A mesma coisa se você usa um vestido curto no trabalho, ou se você vai para uma micareta, ou vai de shortinho no carnaval de rua.

Não provoque, veja bem o que você vai vestir, veja bem como você vai andar, porque se um outro cara entender que vocês estão participando de um mesmo “teatro” de “caça” e “caçador”, você terá colaborado para o que ele fizer com você. MENTIRA! A mulher participa de um jogo sexual quando ela manifesta vontade de participar de um jogo sexual, não quando ela veste o que quer vestir ou está onde gostaria de estar.

Por fim, temos que ouvir:

“De qualquer maneira, cumpre registrar que a Nicole é irresistível”. O que pode parecer um elogio inofensivo reforça um contexto de machismo absurdo, porque reproduz a lógica do estuprador: eu não resisti. Olha só, ela é gostosa, tá usando um vestido de vagabunda, veio fazer piada comigo, porque eu não posso meter a mão por baixo do vestido dela?

Se queremos combater o machismo precisamos repudiar todo e qualquer discurso pretensamente científico que vise reduzir a importância da manifestação da mulher sobre qualquer ato sexual. Não existe “brincadeira” ou “humor” quando estamos a falar de violência sexual.

 P.S.: Faz um tempo que eu tenho usado o facebook como espaço para colocação de reflexões pessoais, filosóficas e políticas, e acabo deixando o blog um pouco de lado. É uma pena, porque o blog é um espaço público, e sempre fez parte da minha história. O abandono vai fazendo com que me identifique um pouco menos com ele. Vou tentando retomar, aos poucos, o hábito de aparecer por aqui, nem que seja para re-postar algumas coisas que deixei apenas no face.

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