Arquivo de janeiro, 2015

Sobre o 2º grande ato contra o aumento da passagem em 2015, sobre as angústias de um Estado que é intransigente na proteção dos direitos da propriedade e que é cruel e violento com às vozes que se levantam para questioná-lo.

Cheguei à manifestação um pouco antes dela começar a descer a Consolação. Os olhos dos policiais militares já me davam a sensação de que não terminaríamos aquele ato bem (algo diferente da primeira manifestação, em que o clima parecia mais amenos até sermos covardemente atacados). Por todos os grupos já existia uma certa tensão e desconfiança. Quando chegamos à metade da Consolação, no caminho à Prefeitura, um policial atira bombas de gás lacrimogênio na parede de um prédio, e elas caem no meio da manifestação. Um grande buraco é aberto, pessoas começam a correr para as ruas laterais, e pensei por uns instantes que ali recomeçariam a caça que fizeram na semana passada.

Após esperarmos por alguns minutos, o ato se concentra novamente na Consolação. Encontramos amigos, minha mãe (lutadora de ontem, hoje e amanhã, meu exemplo maior), e continuamos caminhando. Um pouco antes de chegar ao metrô Anhangabaú recebo uma ligação dizendo que um amigo havia sido detido no primeiro dos ataques da polícia, e que foi levado para a 78ª Delegacia de Polícia, para onde me dirigi. Enquanto estava a caminho da DP, soube de um segundo ataque da polícia, e me orgulhei dos companheiros que resistiram e reorganizaram o ato em direção à prefeitura. Por lá, bombas, violência, spray de pimenta em socorristas e pessoas desmaiadas, uma amiga quebrando o pé. A barbárie em estado bruto.

Cheguei quase ao mesmo tempo de outros 2 advogados do movimento. Tentamos entrar na delegacia e fomos simplesmente impedidos. Um PM parou na frente da porta e disse que não iriamos entrar. Dissemos que isso era ilegal, tentávamos abrir a porta, mas ele disse que só entraríamos quando o delegado permitisse. Uma repartição pública, uma prerrogativa dos advogados, um direito fundamental à defesa, e fomos privados por aqueles que são responsáveis em “manter a Lei”. Depois de quase uma hora de discussão, o delegado permitiu que apenas um de nós entrasse para acompanhar o primeiro detido (que estava ensanguentado, com suspeita de nariz quebrado, de tanto apanhar da polícia). Enquanto isso, chegavam novos detidos, e uma menina que realmente inspirou a todos nós ali com a coragem em que apontava para o PM que a trouxe, denunciando (eu não vou esquecer dessas palavras): “você não disse que quando chegássemos na delegacia ia me colocar numa sala e me encher de porrada? Você não era corajoso enquanto estávamos sozinhos naquele carro? Fala isso agora, me leva para aquela sala, quero ver você me bater agora”. Enquanto nós advogados apanhávamos simbolicamente de uma instituição que rasgou a lei, uma mulher que apanhou de verdade mostrou o significado da palavra coragem e altivez denunciando e enfrentando seu agressor. Ela me inspirou a continuar lutando.

Os manifestantes estavam na carceragem (o que é ilegal), e depois de muito tempo conseguimos ter acesso a eles para conversarmos sobre os procedimentos que se seguiriam. Fui mero coadjuvante, para somar com os colegas que estavam por ali, brigar, apanhar, sofrer com eles. Mas tenho que dizer que a persistência, força e convicção dos advogados ali que se voluntariam para apoiar o movimento foi comovente e fortalecedor, especialmente em momentos de tanta angústia enquanto eu tentava notícias de tantos amigos e pessoas queridas que estavam no ato durante o último e covarde ataque da PM, mas precisava me manter muito concentrado no que estava acontecendo ali.

Depois de quase 5 horas na delegacia, de todos os manifestantes detidos serem ouvidos, da testemunha que presenciou uma das arbitrariedades poder apresentar sua versão, e de vê-los serem acusados de desacato à autoridade (porque questionar a passagem e a violência policial, aos olhos da PM, é crime), todos foram soltos. Cheguei em casa quase às 2 da manhã, engoli um lanche, conversei um pouco com o pessoal de casa, todo mundo muito machucado, e fiquei a noite inteira pensando na urgência de tantas frentes de luta.

Cada vez que a gente sofre uma violência muito, muito grande, seja ela simbólica ou material, e a gente percebe que do nosso lado tem gente que nem conhecemos mas que está disposto a lutar conosco em causas que compartilhamos, nos sentimos mais empoderados para fazer aquilo que acreditamos. Eu cheguei acreditando que isso era o que eu ia fazer os manifestantes detidos saírem. Eu sai de lá com a certeza de que na verdade foi a força daquela menina, dos outros detidos e dos advogados do movimento que me empoderou para continuar na luta.

Ruas, livros, internet, busão, em todos os lugares que estivermos, em todas as possibilidades que conquistarmos, vamos espalhar sementes de mudanças. Que a luta engradeça e nos fortaleça, que terça vai ser maior!

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