Arquivo da categoria ‘Música, escrever, sentir…’

Temos a incrível mania de atribuir ao nosso esforço, capacidade e vocação tudo aquilo que temos de melhor e mais bonito, enquanto aquilo que nos é feio, mesquinho ou egoísta é fruto de um passado complicado, circunstâncias pessoais com as quais não tivemos maturidade suficiente para lidar ou relações familiares complexas que deixaram sequelas e cicatrizes.

É verdade que, para o bem ou para o mal, somos frutos de nossas condições objetivas que dialeticamente se contrapõem com nossa subjetiva individualidade. E é exatamente essa síntese, capaz de tantos improváveis resultados, que nos caracteriza como seres humanos únicos, e nos permite ansiar que as coisas sejam diferentes daquilo que são hoje!

Mas se já somos capazes de reivindicar tudo aquilo que achamos certo, por que será que ainda não somos capazes de enxergar que os nossos medos, inseguranças e desvios também são nossa responsabilidade? Entender e justificar é possível, sempre poderemos encontrar motivos, construir pretextos, mas a questão é até quando vamos aceitar conviver com isso? Não se trata de achar ser possível a busca pela perfeição, de querer exorcizar cada defeito. Clarice nos ensinou que cortar os próprios defeitos pode ser perigoso, já que eles também são nossa base de sustentação. Mas, mais importante do que nos aceitar como somos, é não nos deixarmos resignar com aquilo que machuca e nos afasta dos sonhos e ideais. Como diria um poeta mágico (o da música logo abaixo), uma questão de “não acomodar com o que incomoda”.

 

Vamos escrever um livro?
Vamos conversar com pessoas estranhas na Paulista?
Vamos encontrar um projeto social para investir esse ano?
Vamos nos politizar mais?
Vamos passar a tarde no Ibirapuera?
Vamos cantar durante horas no show de uma pessoa que nos fala à alma?
Vamos fazer yoga?
Vamos ajudar alguém?
Vamos aprender coisas novas?
Vamos cumprir antigas promessas?
Vamos superar nosso orgulho?
Vamos subverter a moral que não nos serve?
Vamos desrespeitar velhos dogmas?
Vamos exterminar o ciúmes?
Vamos nos tornar pessoas mais práticas?
Vamos aprender a extrair o máximo de prazer?
Vamos montar uma banda?
Vamos querer e fazer cada vez mais?

(Escafandro: armadura de borracha e ferro usada por mergulhadores para trabalhos em grande profundidade aquática, que lhes permite resistir à pressão da água)

Durante toda a nossa vida nos vestimos de diversas armaduras para nos proteger daquilo que pode nos ferir. Em todo o lugar, e a todo instante, pessoas em pesados escafandros que lhes evitam a dor, e permitem que se agüente a pressão.

Mas também evitam algo mais. Algo que é preciso e necessário. Algo que o cotidiano, a rotina e o cansaço insistem em demonstrar como fugaz e superficial, mas que o coração não nos deixa esquecer o quão imprescindível é – e continuamente se manifesta, seja através da permanente surpresa em perceber a felicidade através dos pequenos gestos e atitudes nos quais verdadeiramente nos reconhecemos, seja através da solidão decorrente das horas monótonas que invadem o tempo (daqueles que não tem tempo!).

Cuidado com o que vai renunciar em nome da sobrevivência. A repetição do que agora é pode não ser aquilo que você deseja que se transforme. Vamos nos libertar do peso da nossa armadura para que possamos sentir através dessa grossa camada de indiferença que nos invade sob o nome de “preservação”. Vamos perceber o que é nosso cansaço, e o que é a constante dificuldade em discernir as reais dificuldades das mortais conveniências.

Podemos desistir porque é difícil. Ou continuar porque é importante. Fazemos nossas escolhas. E, da forma que nos for permitida, faremos o nosso melhor.

Show do Teatro Mágico sempre me proporciona sentimentos intensos. Hoje vou tentar explicar um pouquinho melhor (porque explicar, neste caso, significa também sentir mais!) sobre esse grande grupo que, ao meu ver, está travando uma interessante mudança de paradigmas no modo de se pensar a música.

A proposta do Teatro Mágico, acessível a todos, é unir diversas manifestações artísticas em um mesmo espetáculo. Fundamentalmente música, circo, poesia, teatro, dança. Mas essa união, por mais bela que seja, não seria tão incrível se não estivesse fundamentada em um objetivo muito maior. E é sobre ele que eu gostaria de falar um pouco agora.

No primeiro CD, eu vejo uma nítida preocupação em resgatar o sentir, o brilho no olhar, o abraço sincero, o companheirismo entre as pessoas, o carinho. Em fazer o coração bater mais forte, permitir que enxerguemos a vida sobre outras perspectivas, com muito mais vontade, com muito mais alegria, com muito mais disposição para as coisas que nos são realmente importantes. Que nos faz repetir que “sinto que sei que sou um tanto bem maior”, “só enquanto eu respirar vou me lembrar de você”, “às vezes a gente se pergunta por que é que não se junta tudo numa coisa só?”, “viva a sua maneira, não perca as estribeiras, saiba do teu valor, e amanheça brilhando mais forte, que a estrela do norte, que a noite entregou” e “camarada, viva a vida mais leve, não deixe que ela escorregue, que te cause mais dor”.

Músicas que nos ajudam a olhar para dentro e achar que isso tudo ainda vale a pena. Que cultivam valores importantes com uma energia vibrante simplesmente contagiante. Que abrem nosso coração para coisas tão boas.

Mas tudo isso tem um limite. Felicidade, alegria, companheirismo. São coisas fundamentais para nossa vida, mas que não se esgotam em si! Como podemos sentir essas coisas em um mundo profundamente marcado pela desigualdade social, pela massificação gerada por um capitalismo que produz pessoas cada vez mais consumistas? Será que toda e qualquer felicidade é bem vinda? Mesmo quando, para senti-la, precisemos fechar os olhos para as coisas que acontecem ao nosso redor, e impõe sofrimento a tantas outras pessoas?

Não. Não é toda a felicidade que é bem vinda. E isto eu vejo de uma forma bem clara no Teatro Mágico: Segundo Ato. Precisamos prestar atenção nas nossas verdades, nos nossos ideais e, principalmente, na realidade do mundo em que vivemos. Não podemos nos alienar, nos tornar indiferente a tudo aquilo que nos machuca. “Em cada gesto a gente tem que mostrar aquilo que a gente pensa, a nossa indignação da maneira que for. Mas que ela seja bem vinda, senão isto se torna o mérito e o monstro”. Eu acho que esta é a principal diferença entre os dois cd’s da banda. Em ambos podemos perceber o cultivar das sensações e dos questionamentos, mas enquanto no primeiro se encontra uma “magia e leveza”, o segundo nos puxa para a realidade e nos cobra uma postura diferente diante do mundo em que vivemos. Não podemos ficar no encantamento, deslumbramento. Precisamos fincar os pés no chão e construirmos as revoluções para que a felicidade não seja a magia de alguns momentos, mas sim um estado permanente permitido a todos, e não a uma minoria privilegiada e fechada a si mesmo.

O maior desafio do Fernando Anitelli e do Teatro Mágico, na minha opinião, é que enquanto o primeiro cd é bastante consensual (faz bem a todos nós olhar para dentro e cultivar os sentimentos que ele descreve) e nos trás conforto e alegria, o segundo cd trabalha questões mais complexas e um pouco menos acessíveis para grande parte dos fãs, sobre a realidade social na qual estamos inseridos e sobre a mudança de atitudes e paradigmas para que possamos praticar algumas verdades que dizemos sentir (todos falamos sobre um mundo mais justo, sobre ajudar as pessoas, sobre cuidar uns dos outros, mas com qual disposição estamos agindo de acordo com esse discurso?). O que eu espero, de verdade, é que os fãs, que gostam de se denominar de pessoas raras e especiais, façam jus a este magnífico trabalho e entendam que a mensagem do Teatro Mágico é muito maior do que a beleza de um espetáculo cheio de cores, musicalidade, e frases para repetirmos sem viver (“acredito que errado é aquele que fala correto e não vive o que diz”).

p.s.: Todas as frases que se encontram entre aspas, no presente post, são de autoria do Teatro Mágico.

p.s.2: São apenas minhas opiniões a respeito do que eu ouvi e senti. Tratam-se de conclusões pessoais, e não de verdades absolutas. Queria trazer a tona um debate, e não uma resposta em relação a conduta a ser tomada.

p.s.3: Se alguém conhecer uma gravação dessa música que esteja com melhor qualidade, e puder me indicar, eu ficaria bastante grato!

p.s.4: Para conhecer mais o trabalho do Teatro Mágico é só acessar http://www.oteatromagico.mus.br

O motivo pelo qual se aprende tanto cada vez que se lê O Pequeno Príncipe, na minha opinião, é que ele fala sobre a construção de relações que não são aquelas que comumente vivenciamos no mundo de hoje.

Não estou falando sobre vidas alheias. Estou falando de mim, de você e de quase todas as pessoas ao nosso redor. É incrível o quanto a gente é capaz de se distrair com detalhes e deixar que o mais importante se perca. É triste, triste demais!

“Tu és eternamente responsável por aquilo que cativas”

É uma máxima simples. Somos responsáveis por aqueles com quem criamos laços. Mas por que?

Porque o nosso coração, quando cultivado, fica mais sensível a tudo o que vem daquela pessoa. Porque o que ela diz passa a ter um significado diferente, porque o que ela é passa a importar muito mais do que o que são os outros. Porque o carinho, as críticas, as vontades, as escolhas, as atenções, tudo isso passa a ser muito mais importante.

“A gente só conhece bem as coisas que cativou. Os homens não têm mais tempo de conhecer coisa alguma. Compram tudo prontinho nas lojas”

Não temos mais tempo de conhecer coisa alguma. Não dá para conceber isso! Quem não tem tempo de ir ao aniversário do amigo, quem não tem tempo pedir desculpa, quem não tem tempo de mandar um email, quem não tempo de tomar “aquela breja” com os amigos, quem não tem tempo de almoçar com a família, quem não tem tempo de pensar sobre o mundo, quem não tem tempo para amar, quem não tem tempo para lutar pelos seus ideais… será que tem tempo de viver?

Outra questão é disposição. Somos cada vez mais comodistas. Queremos bastante, lutamos pouco, realizamos menos ainda. Mas cativar requer disposição, precisamos ter atitude, iniciativa, prestar atenção! Precisamos gastar energia (e para isso precisamos ter energia para gastar).

Não dá, mesmo, para fazer tudo e ao mesmo momento. Mas não estou falando de grandiosas obras! Estou falando de atitudes que podem demorar alguns segundos, poucos minutos ou umas horas, no máximo. Será que o que ocupa o nosso tempo atualmente é mais importante (seja para a sobrevivência ou por alimento a alma) do que o que deixamos de fazer? Será que estamos gastando energia no que realmente vale a pena?

E, o mais importante, qual é a conseqüência destas nossas atitudes em relação às pessoas que cativamos? Obviamente elas nos perdoam. Foram cativadas. Mas o quanto será que estaremos afetando a sua crença em relação ao mundo, a amizade, ao quanto ela pode contar com você, ou quanto sua presença é real. É bom sonhar: mas viver os sonhos é melhor ainda. Nada substitui a presença, que às vezes se manifesta pela simples disponibilidade da outra pessoa em partilhar com você. Sim, quantas vezes temos corpos ao nosso lado e pessoas distantes, e quantas vezes temos corpos distantes e pessoas ao nosso lado?

Levo dentro de mim todas as pessoas que me são especiais. Mas a própria felicidade de carregá-las no coração contém, intrinsecamente, uma certa angústia pelas limitações diretas que me impedem de tê-las por perto.

Não quero deixar isso acontecer comigo. Não quero deixar de ter tempo ou energia para cuidar daqueles que cativei.

Mas as escolhas não dependem só de mim. Tentarei entender o momento e o contexto de cada um, e tenho consciência de que, às vezes, os caminhos levarão as pessoas para longe, sim. O problema é que essa consciência não faz doer menos.

(e a vontade de escrever e a saudade desse lugar são imensas).

Fragmentos

Publicado: outubro 24, 2007 em Música, escrever, sentir..., Reflexões

Às vezes perde o sentido                            Às vezes to tão sozinho
Às vezes faz tanto frio                                 Às vezes perde o sentido
Às vezes to tão sozinho                              Às vezes faz tanto frio            
Às vezes nem quero mais                            Às vezes nem quero mais

Vez ou outra preciso parar tudo
Às vezes me arrependo – mas às vezes não volto atrás
Algumas vezes acertar é assumir que errei – e viver em paz.

Eu sempre me encontrava lutando pelo que não era possível
E isso me faz falta – me provaria de que sou capaz…
De saber o que quero – de ser ser quem sou – de fazer o que é certo, não o que é mais fácil.

Mais se batalha                Se caminha por causa               É plausível
pelo resultado ou             do destino final? ou                  te machucar pelo
por um ideal?                    pelo próprio caminho?              seu próprio bem?

Eu não to aqui à toa não. Eu to na procura e na construção. Eu to aqui pra viver, e não é viver de qualquer jeito! Eu to aqui pra viver da forma mais intensa, plena e livre que eu for capaz.

E não são só palavras! Nunca me satisfazem quando apenas palavras. Amo as palavras, mas não fazem sentido senão enquanto imagem de alguma coisa. E são essas imagens que busco – é isso que me toca e são elas que ficarão marcadas em mim.

Eu não sei exatamente quem eu sou, mas acho que sei o que gostaria de ser. Desejar é mais fácil do que construir, mas eu tento.

E quantas vezes a gente não fica dependendo de circunstâncias alheias a nossa vontade sem perceber que nossa espera só dificulta nossas buscas?

Se você tem esperança, me contagie
Se você tem amor, compartilhe
Se você tem idéias, me ajude a pensar
Se temos os mesmos ideais, vamos juntos lutar.
Se você me quer bem, faça-me o bem

Vamos deixar pra trás tudo o que é baixo e mesquinho. Vamos nos superar, e superar o mundo em que vivemos.

Estou me preparando para o grande salto.
Estou me preparando pra deixar pra trás o que não posso levar comigo.
Estou me preparando pra resgatar tudo aquilo que não posso deixar pra trás de maneira alguma.
Estou me preparando pra superar as perdas. É melhor viver e ser completo hoje e morrer amanhã do que viver toda uma vida pela metade.
To cansado do que é morno. To cansado de ser mais ou menos.

Minha vida é uma eterna ansiedade. Espero de cada segunda uma revolução total.
Esperar o melhor das pessoas as vezes dói, as vezes machuca muito.
Vamos ver onde isso vai dar.

Se tiver alguém aí que seja capaz de me surpreender, se tiver alguém aí que seja realmente capaz de sonhar, se tiver alguém aí que acredite que precisamos viver uma vida intensa, que precisamos acreditar nos nossos amigos, nos nossos sentimentos, nos nossos ideais.
Se tiver alguém aí que ache que não temos tempo a perder, que julgue que cada segundo deve ser vivido da melhor maneira que nos for possível, que não tá afim de ficar perdendo tempo em jogos (em que só há um vencedor), e que quer poder viver inteira e intensamente o que sente, sem culpa, sem mentira, sem receios, sem pudores.

Se tiver alguém assim no mundo, me avise, porque eu preciso conhecer.

* Meu antigo about me, que foi mudado hoje.