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Tenho me perguntado muito sobre o que as pessoas precisam para mudar. Um grande choque? A tristeza? A angústia? O amor? No fundo, sempre parece que estamos esperando que algo aconteça ao nosso redor para que dessa forma possamos mudar o que está dentro e nos incomoda. Soa como um certo comodismo.

Um dos meus namoros terminou de forma muito esquisita. Ela dizia que me amava, que éramos feitos um para o outro, mas que naquele momento eu não cabia na vida dela. Ela precisava mudar: de curso, de casa, de namorado. Foi destruidor e eu realmente não entendi o que aconteceu até pouco tempo atrás.

É que às vezes, para termos força para mexer naquilo que está dentro de nós, precisamos mudar drasticamente o que está fora. Estar longe do meu país, dos meus amigos e da minha família e de boa parte das minhas lutas e sonhos é, com certeza, uma forma de me impor uma mudança interna, cuja brisa já posso vislumbrar.

E, como tem sido a viagem até então?

Diferente do inicialmente planejado, minha estadia em Luanda (capital) foi prorrogada, e devo ficar por aqui por mais de algumas semanas. Luanda é uma cidade de múltiplas realidades. Para se ter uma idéia, pesquisando os preços com conversas (deste motorista de taxi ilegal, corporativo, secretarias, advogados, gerentes financeiros) e o preço da comida varia entre até 5 dólares (ou 500 kwanzas) nas barracas da rua, com carvão e panelas gigantes, ou acima de 20 dólares (ou 2000 kwanzas) em qualquer restaurante. É um mundo as pessoas muito pobres tentam sobreviver, e para os outros não faz muita diferença o quanto vão pagar para comer. Esta é só mais uma das ilustrações sobre as desigualdades sociais, que não deixaram de me chocar em nenhum dos 30 dias que acabo de completar por aqui.

O cotidiano tem sido, ainda, de prestar atenção. Na conversa da moça da rua, puxando papo com as pessoas que trabalham no restaurante. Conheci um estudante de engenharia, chamado Zinho: ele trabalha das 05 às 18 horas num taxi clandestino, 6 dias por semana, para conseguir pagar a faculdade e ajudar nas contas da casa da mãe, com quem mora. É impressionante essa capacidade do ser humano de lutar e fazer o que for preciso. E eu não vejo desespero em seu rosto. Digo, a gente tem crise por tanta coisa: porque pegamos trânsito, porque ela não ligou de volta. Não acredito naquela história de que “temos que agradecer: olha como tem gente pior que a gente – fique feliz” porque acho que este é um conceito extremamente pessoal e subjetivo, mas realmente repenso, repenso e repenso sobre as minhas capacidades, dessa vitimização maluca que colocamos a nós mesmos, de querermos tanto e nos dispor em geral tão pouco. Enfim, o Zinho é um cara que, além de me mostrar a cidade, as praias, os guetos do centro, as baladas, tem me dado esperanças quanto sobre as coisas em Angola.

O que antes parecia resignação, agora me parece uma preocupação imediata com a sobrevivência. Começo a entender um pouco melhor as coisas aqui. Não é que as pessoas não se importem com essa desigualdade, é só porque elas precisam sobreviver. A guerra civil não é uma realidade da qual a maior parte das pessoas vivas aqui não tenham feito parte. Quase todos os homens com mais de 30 anos serviram ao exército durante a guerra. Boa parte deles entrou com 14 anos. Eu tava vendo o Roberto Baggio perder um pênalti e o Brasil ser campeão mundial. Eles tiveram que se alistar no exército porque senão as chances de serem mortos (ou morrerem isolados) eram extremamente prováveis. Temos formas de pensar diferente com relação às instabilidades políticas, grandes mudanças, agitações. As pessoas em geral querem a vida antes da justiça. Penso que existem alguns passos que não podemos pular. Passos que são nossos, e que eu não poderia dar por eles, e nem eles poderiam dar por mim.

É curiosa essa sensação de “observação participante”. Sinto que Luanda é uma cidade onde as pessoas podem ficar todo o tempo distraídas, do seu escritório ao seu condomínio, dos seus restaurantes aos seus clubes privados. Mas pode ser o lugar em que você pode aprender um pouco mais sobre uma realidade completamente diferente da sua e admirar sorrisos dos mais bonitos com os quais já cruzou. Você pode olhar pela janela e só enxergar a paz, mas “paz sem voz não é paz, é medo”.

Temos a incrível mania de atribuir ao nosso esforço, capacidade e vocação tudo aquilo que temos de melhor e mais bonito, enquanto aquilo que nos é feio, mesquinho ou egoísta é fruto de um passado complicado, circunstâncias pessoais com as quais não tivemos maturidade suficiente para lidar ou relações familiares complexas que deixaram sequelas e cicatrizes.

É verdade que, para o bem ou para o mal, somos frutos de nossas condições objetivas que dialeticamente se contrapõem com nossa subjetiva individualidade. E é exatamente essa síntese, capaz de tantos improváveis resultados, que nos caracteriza como seres humanos únicos, e nos permite ansiar que as coisas sejam diferentes daquilo que são hoje!

Mas se já somos capazes de reivindicar tudo aquilo que achamos certo, por que será que ainda não somos capazes de enxergar que os nossos medos, inseguranças e desvios também são nossa responsabilidade? Entender e justificar é possível, sempre poderemos encontrar motivos, construir pretextos, mas a questão é até quando vamos aceitar conviver com isso? Não se trata de achar ser possível a busca pela perfeição, de querer exorcizar cada defeito. Clarice nos ensinou que cortar os próprios defeitos pode ser perigoso, já que eles também são nossa base de sustentação. Mas, mais importante do que nos aceitar como somos, é não nos deixarmos resignar com aquilo que machuca e nos afasta dos sonhos e ideais. Como diria um poeta mágico (o da música logo abaixo), uma questão de “não acomodar com o que incomoda”.

 

Caleidoscópio Cinza

Publicado: setembro 24, 2011 em Olhar para dentro, Reflexões

É que às vezes bate um vazio, e uma certa angústia com relação à condições que parecem fazer parte do que somos, e não conseguimos, não podemos mudar. Sou exigente, e em geral gosto das coisas que escolho ser, mas o que fazer com tudo aquilo que me foi dado, que é parte de mim e que, por mais que me incomode, não conseguirei ainda mudar?

Sinto que quando a mudança é em direção a algum ideal, me transborda uma energia que nem existe em mim e que torna possível ao menos tentar. Mas na hora de enfrentar os medos e fantasmas mais íntimos, ainda que haja pouco a perder, sempre me parece demais, e a coragem e disposição se perdem em devaneios escuros.

Sinto que não às vezes não consigo ser quem sou, e então chego a conclusão de que neste momento me torno alguém que não gostaria de ser. E fujo, ainda que não esteja acostumado com essa palavra, para me preservar. E fico a pensar, nesse exato instante, se não seria melhor ter ficado, me destruído, para que pudesse reconstruir? Melhor, talvez, mas não estou pronto. Por enquanto.


Desde cedo a gente aprende a lidar com o prazer. E nossa vida se torna, mais ou menos, uma busca pela realização dos desejos e pela felicidade. A dor e a angústia seriam então ruins, por representarem exatamente o oposto do prazer e da alegria.

Depois que a gente cresce um pouco, entendemos um pouco melhor a angústia. Ela nos ensina coisas muito importantes que eram até então desconhecidas. Não permite o comodismo e faz com que nos movimentemos para outros lugares. Percebemos que precisamos não só respeitar nossas vontades e sorrisos, mas também nossos medos e lágrimas.

De repente parece que as pessoas, em geral, se acostumam também a uma leveza quase tediosa. Alguns chamam isso de segurança, outros dizem que passamos a procurar a previsibilidade, um pouco mais de controle e segurança. Parece que para a maioria o porto seguro está no morno. Que a zona de conforto é não sentir demais, nem o prazer, nem a dor. Tudo o resto vira rótulo para desequilíbrio, extravagância, luxúria.

O que eu sei é que eu ainda não consegui, ou, ainda melhor, sei que isso não é para mim. Por mais que velhas feridas me impeçam de dar os saltos necessários, o medo de me machucar “é a paz que eu não quero conservar para tentar ser feliz” (como já se ouvia cantar em Minha Alma).

(e, já que a citação caiu como uma luva ao fim do post, compartilho também o clipe da música, que é um dos melhores – se não o melhor – que eu já vi).

 

Ouvir e Sentir

Publicado: julho 27, 2011 em Olhar para dentro, Reflexões

São três da manhã e você permanece desperta. Sei que está cansada, e sei que você não entende (ou não concorda) com o que me faz ainda estar aqui. Mas você fica, insiste e sorri. Quando meus olhos já não me obedecem, me chega um pouco de café. E quando eu acho que tudo isso será inútil, você aperta a minha mão, e lembra que há muito de mim ainda a oferecer. E diz saber que eu não vou desistir, ri e canta baixinho, meio desafinada mesmo “se o que eu sou é também o que escolhi ser, aceito a condição”. Me pergunta para quê, então, sofrer tanto se é por algo que acredito, se lutar por isso me faz bem. Pede para eu ficar só com as dúvidas que vão me fazer questionar, aquelas que vão trazer movimento. E aí não sei o que me dá, mas esse mundo doido (de uma loucura tão cruel e solitária) faz invadir uma realidade tão diferente, meio cinza, sabe? E eu juro que luto para manter tuas lembranças, toda a esperança que me contagiou. Sem você aqui o caminho é menos bonito, menos gostoso. Fica aquele meu jeito de fazer mais pelo que acredito e menos pelo que preciso. Mas vou continuar caminhando. Sei que ainda vou sentir.

 

Estar de férias tem sido, para mim, como desligar da tomada. Um tanto de silêncio, bastante paz, muito sono, descanso. Diferente de tudo o que vivi nestes últimos 5 anos em termos de intensidades, correrias, mil planos e projetos, tantas tomadas de posição. É diferente do que eu esperava, mas estou me permitindo desligar, por duas semanas, feito menos questão de fazer sentido, menos pressa para tudo. Estou vivendo um tempo meu, exclusivamente meu, sem muitos compromissos. Com alguma solidão, com bastante leveza, deixando as horas escorrerem enquanto carrego baterias para os novos tempos que inevitavelmente virão (e serão bem vindos). Sendo assim, me permitirei experimentar também neste blog formas mais subjetivas de questionar.

 

(permitir parece mesmo a palavra da vez!)

Sobre Ser e Parecer

Publicado: junho 25, 2011 em Olhar para dentro, Reflexões

Sei que estou encerrando um ciclo, mas é que a minha liberdade custou muito do meu sangue, e isso deixa sua marca. E se transborda disposição do meu peito, não é isso que as pessoas enxergam dos meus olhos cansados (e se a intenção é ser fagulha, me importa muito o que se enxerga de mim).

 

Eu sempre tive dificuldades com o parecer. Acho em geral que as pessoas se distraem tanto pensando em como parecem que se esquecem de tentar descobrir o que efetivamente são, deixam de conhecer e conhecer os outros. Mas hoje percebo que parecer aquilo que se é (ou se pretende ser) pode ser a diferença entre conseguir a coerência não cartesiana necessária ao crescimento (como disse Leminski: “isso de querer ser exatamente aquilo que a gente é ainda vai nos levar além”). Afinal, o que é que podemos dar ao mundo? Aquilo que está simplesmente dentro de nós, ou aquilo que colocamos para fora (consciente ou inconscientemente)? O que é a verdade de nós para os outros senão aquilo que podem enxergar? Talvez ser para si baste a muitos outros. Para mim (e para o que preciso e acredito), tenho de ser ao mundo e para a vida.

 

Porque o cinza não inspira o vermelho. E é deste que eu preciso.

Nós não vamos conseguir mudar quem somos antes de transformar o mundo em que vivemos. Nós não vamos conseguir mudar o mundo em que vivemos sem mudar quem somos.

(e continuo acreditando que preciso mudar muito: a mim e ao mundo)

Vamos pensar e sentir: não vivemos em uma bolha. Não adianta, a luz do sol (ou a falta dela) muda a cor da nossa pele. Os sorrisos (ou os des sorrisos) afetam nossa alma. Os nossos governantes fazem escolhas que determinam se teremos mais pontes ou melhor transporte público. As pessoas de nosso trabalho (ou faculdade) influenciam de forma determinante não apenas nosso humor, mas também boa parte do que somos. O que dizer da família, nossos espelhos, e de todas as regras morais, sociais, econômicas, amorosas (contra as quais, por mais subversivos que sejamos, não podemos passar indiferentes).

O mundo lá fora faz toda diferença para o que acontece aqui dentro. Mas não sejamos por demais deterministas: o que dizer da nossa força interior que insiste em transbordar para que possamos nadar contra a maré? Quando, apesar de todas as expectativas, conseguimos ser diferentes (e fazer diferente). Isso me faz saber que também podemos transcender nossas condições materiais imediatas para ir um pouco além.

Desde que tenhamos disposição para isso.

A forma como escolhemos nossas atividades e cuidamos do nosso corpo, como nos comportamos diante daqueles que estão perto, ou de como somos conscientes e atuantes com relação à política e às questões sociais, tudo isso faz com que o mundo mude. Às vezes, simples atitudes transformam o dia de uma pessoa.

Mais do que isso, eu acredito realmente que são dois caminhos (para dentro e para fora) que apenas parecem distintos. No fundo, é uma só estrada e uma só direção.

Penso hoje que nunca seremos quem gostaríamos de ser em um mundo que não é como deveria ser. E que nunca teremos o mundo que gostaríamos enquanto não estivermos mais perto do que realmente queremos e acreditamos. Não acredito que a mudança possa ser só do indivíduo para sociedade, nem apenas da sociedade para o indivíduo. Ou as coisas caminham juntas, ou não chegaremos. Então, sem deixar de prestar atenção em tudo o que acontece dentro de nós, vamos manter nossa mente e olhos abertos, e cuidar daquilo e daqueles que estiverem ao nosso redor. Cuidar de nós mesmos é também uma forma de cuidar dos outros, assim como cuidar dos outros também é uma forma de nos salvar.