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Eleições em Angola

Publicado: agosto 31, 2012 em Angola, Política
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Hoje temos a primeira eleição para presidente de Angola (a eleição anterior, de 1992, não foi concluída – o país permaneceu em guerra civil de 1975 a 2002). O responsável pelo marketing do MPLA (partido de origem socialista, e que está no poder desde a independência de Angola e início da guerra civil) é o João Santana, um dos principais marqueteiros do PT. O lema do partido é “crescer mais e distribuir melhor”.

Angola, segundo algumas previsões, pode se tornar o país com o maior PIB da África até 2020. É também um dos países mais desiguais, o lugar onde eu mais vi carros de luxo em toda a minha vida, e um lugar onde 95% da cidade (em Cacuso) só tem acesso à água por meio de poços artesianos, abertos à população apenas em algumas horas do dia, e a energia elétrica é em sua maioria proveniente de geradores movidos à gasolina (para quem pode pagar).

Obras, obras por todos os lados. Em Luanda, não ando mais do que 200 metros sem ver algum grande projeto sendo erguido. Bairros inteiros construídos a partir do nada – e boa parte deles abandonados, porque os apartamentos “populares” custam de 95 a 180 mil dólares. Mas a extrema quantidade de apartamentos vazios não impede a especulação imobiliária de lucrar muito: o aluguel de um apartamento simples de 3 quartos, no bairro de Talatona (em Luanda) custa no mínimo 5 mil dólares (10 mil reais).

Muitas empresas estão se instalando aqui. A carga fiscal é enorme, mas existem incentivos fiscais agressivos para empresas “estratégicas”, especialmente àquelas que tenham sócios locais “estratégicos”. O empresariado Angolano é composto, especialmente, por pessoas ligadas direta ou indiretamente à política e ao exército. Os generais tem ampla influência não só nas questões políticas, mas também em questões econômicas.

A maior parte da população é de fato favorável ao MPLA. Mas mesmo entre os adeptos do partido, muitos disseram ter uma sensação de necessidade de alternância ao poder. Poucos declaram abertamente, mas muitos militantes do partido estão dispostos a votar no candidato da oposição para haja uma maior pluralidade na câmara, e para alternância do presidente. Não consegui discernir, nas propagandas e nas notícias, uma diferenciação forte entre as ideologias (pesquisando os documentos históricos dos diversos partidos as diferenças ideológicas estão muito claras – o MPLA tem forte apelo popular, Angola chegou a experimentar um início de experiência socialista, e foi amplamente apoiado por Cuba, e a UNITA, de origem mais conservadora, era apoiada pela África do Sul, e, indiretamente, pelos EUA), mas todas as propostas de governo são unânimes em crescimento e distribuição de renda, sem especificar de forma clara quais serão os métodos utilizados.

É fácil ter uma visão crítica do processo eleitoral e da democracia angolana. Parece ponto comum que é extremamente injusto o governo fazer 2 inaugurações de grandes obras por dia nas semanas que antecedem as eleições,  que o canal público de televisão não deveria passar 18 horas por dia mostrando as grandes obras do governo e colhendo depoimentos do quão sua vida está melhorando, que sejam entregues nas campanhas cestas básicas para o povo pelos partidos diversos, dentre outras coisas. É fácil criticarmos, mas é também por demais cômodo. Este é um país que está passando pela segunda eleição na sua história (quando o primeiro processo eleitoral foi interrompido pela retomada da guerra civil), que era uma colônia de Portugal (ou seja, as pessoas sequer tinham direitos políticos ou sociais, tudo – alias, o pouco que era – soava como favor da classe dominadora). Longe de ser complacente com os absurdos, precisamos entender cada lugar a partir do seu próprio contexto, para não tentar transportar respostas e soluções que funcionam em outros espaços, mas que poderiam ser temerárias se colocadas em um lugar com circunstâncias tão diferentes.

Fico pensando que, de longe, a sociedade ocidental valoriza muito a democracia de forma. Uma mania de achar que um processo eleitoral “adequado” dará vazão às necessidades das pessoas, e o resultado, qualquer que for, será justo e correto. Talvez seja o menos injusto possível, mas isto está longe, muito muito longe de ser suficiente. A participação popular não deve se restringir ao voto. Quais ferramentas nos são dadas para votar? O quanto de informação, o quanto de educação política, o quanto de instrumento de participação popular (para muito além do voto)?

Frio (ou) A culpa é de quem?

Publicado: julho 17, 2012 em Política, Reflexões

Sabe quando você pensa “nossa, que noite fria ontem”, “que gostoso tomar um chocolate quente”, “como o vinho cai bem em noites como essa?”.

Pense também em “o que será que acontece tom todas as pessoas que não tem casa, ou tem moradia sem nenhuma dignidade”, “será que é socialmente justo que a especulação imobiliária faça com que tenhamos mais imóveis do que gente para morar em São Paulo, e mesmo assim as pessoas tenham que morar nas ruas” ou então “será que São Paulo – ou o Brasil (ou Angola) – trata com dignidade aqueles que não tem dinheiro?”

E, mais do que pensar sobre o quão injusta são as coisas, pensemos, acima de tudo, sobre o que nós fazemos para mudar tudo isso. Ioga para encontrar a paz interior é importante, mas não é tudo. Doar agasalhos nas campanhas de inverno é muito pouco.

Ao votar nos mesmos candidatos e partidos que sempre fizemos, estamos corroborando com todas essas injustiças. Ao reclamar que as manifestações atrapalham o trânsito, estamos dizendo que cagamos e andamos para os absurdos do mundo. Ao reclamar da greve dos metroviários, estamos dizendo que nos importamos muito pouco com as condições de trabalho do outro. 

Mas ao não reclamar de nada, mas tão pouco se esforçar para estudar, entender porque as coisas estão dessa maneira, pensar em como podemos transformá-las, e, principalmente, nos dispor a lutar pelas transformações que acreditamos, estamos fazendo com que o mundo seja exatamente aquele que é. 

Aquele mundo que é assim, é absurdo, sem que sintamos a mínima culpa pelo que acontece aos outros ao nosso redor. A mínima responsabilidade pelas condições miseráveis às quais o ser humano é diariamente submetido. Saramago disse que, se tens olho, vê! e se podes ver, repara. Acho que reparar é sentir, e sentir deveria impulsionar, necessariamente, o agir.

(e “quem quer manter a ordem? quem quer criar desordem?”)

Estamos aqui (e onde queremos estar?)

Publicado: fevereiro 16, 2010 em Política, Reflexões

Acordar, abrir os olhos e as janelas, olhar para fora, respirar fundo. Estamos mesmo aqui.

Não sabemos (e como somos distraídos!), mas a todo instante escolhemos: mudar o mundo ou não? (começa com o bom dia, você escolhe: gentileza ou indiferença? Prestar atenção ou ignorar? Se informar ou alienar? Estar disponível às paixões ou às apatias? Pensar em política ou em jogos e BBB?).

Ninguém é infalível ou perfeito. Merecemos descanso. Mas não é impressionante o quanto cada vez menos nos importamos com o quão egoísta as pessoas estão se tornando?

Estamos atentos àqueles que nos são importantes? Quão tolerante somos com as nossas pequenas diferenças? Quão intolerantes somos com as diferenças que precisam ser combatidas? Cade nossa sensibilidade quanto às necessidades alheias, e a nossa combatividade pelos nossos valores e ideais? Vamos, vamos, eu moro em uma cidade cinza, mas ainda acredito na força do azul e no vermelho dos corações. Ideologias se vendem, uma voz repete, insistentemente: se quer fazer mais pelo seu país, consuma! Lute por um emprego melhor, ganhe um salário maior, pague seus impostos e estará contribuindo para um futuro melhor da nação. Não me basta ser esse “bom” cidadão. O que fazer, então?

Vamos pensar nosso mundo! Vamos pensar (e sentir mais) nossos sentimentos! Vamos respeitar nossa individualidade, sem que isso represente a intolerância às diferenças e a opressão de nossos iguais. Não é aceitável que o nosso modo de viver dependa de um sistema reprodutor de tanta injustiça e indiferença. Vamos buscar alternativas, fazer diferente, ser um pouco mais do que nos é exigido (mas em direção oposta!). Podemos reproduzir o que não concordamos ou tentar produzir algo que realmente seja digno de ser partilhado.

—-

Eu não sou mero espectador
Não vou ver pelo vidro,
Nem pelos olhos daqueles que não estão sentindo

Dos meus caminhos? Eu sou diretor

Eu quero mais é vida
É sentimento no peito
É evitar o estreito
É encontrar uma saída

Eu quero é verdade
E se vier a dor
Desde que traga a inquietude
E me ajude a contrapor
A todo este horror

Que seja bem vinda!

(Quando a miséria vai parar de me ferir?
O dia que não houver miséria
Ou o dia que eu não existir)

Queremos mais paz e amor
Mas a paz para os justos (e para aqueles que sentem)
Só é possível em um mundo de justiça

Amor de verdade?
Só com igualdade
(Quando não seremos reflexos,
Nem maiores, nem menores
A reproduzir o status quo!
E amar superficialmente
Sem gosto de gente
Sem paixão e sem ardor!)

A utopia é meu norte
E os sonhos meu cimento
Meu futuro não é da sorte
Construirei meu movimento


p.s.: se tiverem sugestão de nome para essa pseudo-letra-de-rock’n’roll, serão muito bem vindas!

Um outro mundo é possível? Mais do que isso! Outro mundo é urgentemente necessário!


Ocorreu em Porto Alegre, entre os dias 25 a 29 de janeiro, um dos núcleos de eventos da 10ª edição do Fórum Social Mundial para discutir as possibilidades de mudança no mundo. Mais do que o descritivo desse encontro e dos ótimos debates que pude observar, existem algumas considerações que gostaria de partilhar, sobre as premissas da existência e fundamentos do FSM.

Você está satisfeito com o mundo em que vive? Para você, é indiferente que tantas pessoas se encontrem na miséria? E que o dinheiro seja um dos principais determinantes das condições materiais em que alguém pode viver?


Não é suficiente, para a mudança, que apenas ouçamos a palavra “não” três vezes nas respostas acimas. Afinal, que o mundo não anda lá essas coisas, pouca gente duvida. Miséria, ignorância, violência, egoísmo, consumismo. Não há redoma ou alienação que proteja qualquer um em lidar com esta realidade.

Agora, como lidar com esta realidade é o que diferencia a maioria das pessoas. Existem, dentro de um universo de possibilidade, algumas mais frequentes: (i) a alienação e acomodação, através da qual as pessoas se distraem com coisas que as impeçam de pensar sobre as questões sociais do mundo; (ii) a aceitação de que o melhor sistema possível é o vigente e que, embora o mundo esteja longe do ideal, se é isso o que temos é isso o que de melhor podemos ter para agora, e não adianta se esforçar em alguma luta, porque as coisas acontecem no seu tempo certo, naturalmente, sem que as pessoas precisem agir em determinada direção – e isso envolve também esforços e pequenas mudanças – como votar em um político que nos parece gentil e humano, dar esmolas na rua, não sonegar impostos; e (iii) a indignação diante das injustiças, o incômodo, a angústia. Estes são os combustíveis fundamentais para a inquietação que simplesmente não nos permite ficar parados e em paz com nossa consciência.


O primeiro passo, portanto, é o sentir construtivo. E esta é a primeira grande contribuição do FSM: juntar em um mesmo espaço as pessoas que sentem necessidade de lutar pelas mudanças. E a grande sacada é que ele nos demonstra que, apesar de termos histórias, ideologias e caminhos diferentes, podemos encontrar, dentro da diferença, uma grandeza e riqueza que inundam a nós próprios!


Isso me faz pensar tanto, e sobre tanta coisa, que fica difícil definir um foco. Portanto, antes de expor quaisquer outros pontos específicos das coisas que ouvi e vivi neste FSM, queria sugerir a reflexão:

Com qual intensidade e determinação sentimos as mudanças que pensamos serem necessárias ao mundo?

Vamos levantar a cabeça para perceber tudo o que acontece a nossa volta. Não é possível que seja tudo tão trivial, que nosso olhar seja sempre tão superficial! Vemos a miséria e a injustiça por todos os lados, e tudo o que podemos dizer é “ó mundo tão desigual, tudo é tão desigual?”.

Até quando fingiremos que isso é culpa das políticas públicas, do caráter humano, do momento evolutivo de nossa espécie, de uma cultura degradada pelo consumismo, em que o egoísmo é cultivado como a única verdade incondicional de nossa natureza?

Somos tão mais que isso, mas, em termos práticos, estamos agindo como se fossemos? A questão não é saber a solução (pura e simplesmente), mas perceber o quanto realmente nos importamos com isso: como anda o seu nível de angústia em relação a tudo que é e não deveria ser?

(eu sei, eu sei. precisamos sobreviver e nossa angústia, por si só, não gera mudança. mas será que alguma das grandes pessoas que conhecemos, figuras históricas ou pessoais, será que elas conseguiram seus grandes feitos sem antes terem se angustiado profundamente com a situação que precisaram enfrentar?)

O que te angustia, e como você manifesta a sua rebeldia em relação a isso?

O meu ano novo está dentro de mim.

Não está em janeiro, no diploma recém conquistado, prova da OAB ou na nova fase profissional.

Não está no meu tempo novo, está no que eu farei de novo no meu tempo.

Não está no que vai vir, está onde eu vou chegar.

A maturidade não é uma conseqüência simples e inevitável. É fruto de um processo de reflexão, é saber que aquilo que se sabe nunca é demais. Que podemos e precisamos aprender cada vez mais, sempre.

(Acho que o ano novo começa quando a gente para de se acomodar e decide ir à luta. Quando a gente se permite sentir mais, e quando a gente se aplica em viver mais aquilo que sente)

O ano novo começou em muitos aspectos para mim. Sinto ressurgir uma esperança e disposição que andaram ofuscadas nos últimos anos. Conheço-me e sei que este é meu combustível mais fundamental, o maior catalisador das mudanças.

Que tudo isso exploda dentro de mim e resulte numa intensidade cada vez maior. Pois eu preciso, mais do que nunca, do meu ano novo.

Receita de Ano Novo de Carlos Drummond de Andrade

Para você ganhar um belíssimo Ano Novo
cor de arco-íris, ou da cor da sua paz,
Ano Novo sem comparação com todo o tempo já vivido
(mal vivido ou talvez sem sentido)
para você ganhar um ano
não apenas pintado de novo, remendado às carreiras,
mas novo nas sementinhas do vir-a-ser,
novo até no coração das coisas menos percebidas
(a começar pelo seu interior)
novo espontâneo, que de tão perfeito nem se nota,
mas com ele se come, se passeia,
se ama, se compreende, se trabalha,
você não precisa beber champanha ou qualquer outra birita,
não precisa expedir nem receber mensagens
(planta recebe mensagens? passa telegramas?).
Não precisa fazer lista de boas intenções para arquivá-las na gaveta.
Não precisa chorar de arrependido pelas besteiras consumadas
nem parvamente acreditar, que por decreto da esperança
a partir de janeiro as coisas mudem
e seja tudo claridade, recompensa,
justiça entre os homens e as nações,
liberdade com cheiro e gosto de pão matinal,
direitos respeitados, começando pelo direito augusto de viver.
Para ganhar um ano-novo que mereça este nome,
você, meu caro, tem de merecê-lo,
tem de fazê-lo de novo, eu sei que não é fácil,
mas tente, experimente, consciente.
É dentro de você que o Ano Novo
cochila e espera desde sempre.

Quando as verdades incontestáveis não nos bastam, é preciso desconstruir.

Quando o que sabemos não foi descoberto por nós mesmos, é preciso desconstruir.

Quando o senso comum nos afasta do pensar, e nos obriga a aceitar máscaras conveniente, é preciso desconstruir.

!!

E é justamente pela necessidade de desconstruir que resolvi participar, junto a um grande amigo, de um novo projeto, que pode ser encontrado em http://desconstruir.wordpress.com , e que pretende fomentar discussão sobre alguns temas polêmicos e interessantes com os quais esbarramos. Por isso, não queria apresentá-los como mais um espaço para leitura, mas sim como um espaço para debates saudáveis que nos ajudem a alcançar um pensamento crítico mais livre de idéias pré concebidas. Vamos lá!

Você se enxerga enquanto agente ativo dos rumos que o mundo está tomando? Considera que suas atitudes colaboram para que o mundo seja um lugar igual ou diferente do que você gostaria que fosse? Concorda que sabe muito mais sobre o que deve ser feito do que de fato faz para que as coisas mudem?

Tá na hora de chamar um pouco a responsabilidade para si. Ser feliz não é imoral, ser indiferente sim. Cada um nas suas atitudes, cada qual dentro de suas possibilidades, mas não se deixar acomodar, não deixar de se importar, não desistir de lutar (a conveniência quase sempre nos afasta das nossas maiores verdades).

Aos que virão depois de nós (Bertold Brecht)

Eu vivo em tempos sombrios.
Uma linguagem sem malícia é sinal de
estupidez,
uma testa sem rugas é sinal de indiferença.
Aquele que ainda ri é porque ainda não
recebeu a terrível notícia.

Que tempos são esses, quando
falar sobre flores é quase um crime.
Pois significa silenciar sobre tanta injustiça?
Aquele que cruza tranqüilamente a rua
já está então inacessível aos amigos
que se encontram necessitados?

É verdade: eu ainda ganho o bastante para viver.
Mas acreditem: é por acaso. Nado do que eu faço
Dá-me o direito de comer quando eu tenho fome.
Por acaso estou sendo poupado.
(Se a minha sorte me deixa estou perdido!)

Dizem-me: come e bebe!
Fica feliz por teres o que tens!
Mas como é que posso comer e beber,
se a comida que eu como, eu tiro de quem tem fome?
se o copo de água que eu bebo, faz falta a
quem tem sede?