Arquivo da categoria ‘Reflexões’

(…) É como estar do lado de cá, mas saber que do lado de lá sempre também terá um pedaço de mim – e é como se um pedaço do que eu quero ser, desse eu que ainda não conseguiu, já tivesse se realizado naquela pessoa, enfrentado os demônios dos quais ainda me escondo e, vez por outra, pudesse até derrotá-los, e se isso não me faz tão forte quanto eu precisaria me tornar para superá-los, certamente me faz ter esperança de que um dia poderei sê-lo (…)

(…) e é só uma forma meio maluca de lidar com a vida, entregando demais para aquilo pelo que me sinto responsável, procurando menos do que gostaria aquilo que de fato desejo (…)

(…) Mas acima de tudo, é uma forma de romper ciclos, terminar rascunhos e poder lidar com tanta coisa que vive e cresce dentro de mim, mas que não encontra espaço para se manifestar na loucura do concreto paulistano – nas correrias, militâncias, festas, trabalho, família, enfim. Tudo passa tão depressa em São Paulo (e o tempo se arrasta tão absoluto e calmo aqui em Angola)  (…)

(…) às vezes me sinto só – às vezes feliz, às vezes miseravelmente só – e aprendendo a viver com isso, sem uma casa sempre cheia de familiares ou amigos e, principalmente, respirando um lugar novo, uma cultura nova, vivendo mais próximo daquele mundo miserável que eu sempre soube ser real, mas que as comodidades da minha cidade natal podiam facilmente transpor e iludir (a miséria está por todos os cantos da minha metrópole natal, mas como é fácil esquecer dela quando se chega no bar e começamos a beber nossa cerveja junto de pessoas queridas e especiais) (…)

(…) e estou aqui! Penso em você muitas vezes, e acho que sofremos desse problema, de nos falar tão pouco que um email de “como estão as coisas aí” quase não faz sentido, e também dessa curiosidade quase existencial que eu sinto com relação a você, de todo o carinho – de encontro de sangue, que é nosso, que é vermelho não pela fisiologia, mas pela história comum, semente da qual somos frutos – que sinto receber, mas não sei transmitir (…)

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Frio (ou) A culpa é de quem?

Publicado: julho 17, 2012 em Política, Reflexões

Sabe quando você pensa “nossa, que noite fria ontem”, “que gostoso tomar um chocolate quente”, “como o vinho cai bem em noites como essa?”.

Pense também em “o que será que acontece tom todas as pessoas que não tem casa, ou tem moradia sem nenhuma dignidade”, “será que é socialmente justo que a especulação imobiliária faça com que tenhamos mais imóveis do que gente para morar em São Paulo, e mesmo assim as pessoas tenham que morar nas ruas” ou então “será que São Paulo – ou o Brasil (ou Angola) – trata com dignidade aqueles que não tem dinheiro?”

E, mais do que pensar sobre o quão injusta são as coisas, pensemos, acima de tudo, sobre o que nós fazemos para mudar tudo isso. Ioga para encontrar a paz interior é importante, mas não é tudo. Doar agasalhos nas campanhas de inverno é muito pouco.

Ao votar nos mesmos candidatos e partidos que sempre fizemos, estamos corroborando com todas essas injustiças. Ao reclamar que as manifestações atrapalham o trânsito, estamos dizendo que cagamos e andamos para os absurdos do mundo. Ao reclamar da greve dos metroviários, estamos dizendo que nos importamos muito pouco com as condições de trabalho do outro. 

Mas ao não reclamar de nada, mas tão pouco se esforçar para estudar, entender porque as coisas estão dessa maneira, pensar em como podemos transformá-las, e, principalmente, nos dispor a lutar pelas transformações que acreditamos, estamos fazendo com que o mundo seja exatamente aquele que é. 

Aquele mundo que é assim, é absurdo, sem que sintamos a mínima culpa pelo que acontece aos outros ao nosso redor. A mínima responsabilidade pelas condições miseráveis às quais o ser humano é diariamente submetido. Saramago disse que, se tens olho, vê! e se podes ver, repara. Acho que reparar é sentir, e sentir deveria impulsionar, necessariamente, o agir.

(e “quem quer manter a ordem? quem quer criar desordem?”)

Como você está?

Publicado: junho 15, 2012 em Angola, Reflexões

Será que em determinado momento da vida nos distraímos pelo nosso cotidiano de obrigações, por já ter tantas expectativas quanto aos outros (e tanto trabalho para atender às expectativas do outro), compromissos profissionais, estudantis e amorosos, que já nos sentimos tão cheios de nós mesmos que não existe espaço para o novo? Fico prestando atenção para saber se ainda estou aberto, para pensar (e repensar) as minhas convicções filosóficas e políticas, para descobrir (e aprofundar) as pessoas que me parecem interessantes e especiais, para não me distrair com relação aos bons amigos que a vida já me aproximou, para me permitir sentir paixões sem medos, expectativas ou ciúmes. Se me entender hoje parece mais fácil do que já foi no meu passado, me transformar tem sido cada vez mais difícil, e necessitado mudanças abruptas no meu modo de viver, e acredito que este é um dos motivos pelos quais estou aqui.

E aí me perguntam: “como você vai?”

Não é estranho que possamos descrever como nos sentimos com um “tudo bem”, “tudo indo” (uma forma educada de dizer “tudo mal”) ou “mais ou menos” (uma forma educada de dizer “tudo muito mal”)?

Os dias tem sido de sentimentos intensos. As novidades me atraem, e eu sinto um prazer enorme em descobrir mais sobre outras culturas. Às vezes me pego prestando atenção nas conversas ao meu redor. As pessoas em Angola falam de forma tão enfática! Não existe pretensa neutralidade. Elas parecem ou muito inconformadas, ou muito felizes, ou muito bravas, ou muito alegres. Sempre muito.

Mas a miséria me consome. E ela está presente todos os dias, na frente da minha casa, na estrada, nas pessoas procurando emprego. As casas improvisadas de barro e madeira, a ausência de qualquer saneamento básico, as crianças brincando no meio do lixo, pedindo comida na saída do supermercado. Até o que eu não vejo machuca: não vi em Cacuso um idoso sequer!

O que eu sinto, enfim, não cabe em uma resposta retórica de uma linha. Sinto que não sentia o tamanho do mundo como agora, porque mesmo sabendo de toda essa diversidade (e de muitas outras), tem coisas que a gente só sente quando pode entrar em contato, tocar, sentir o cheiro, marcar a retina.

E se não me sinto feliz a maior parte do tempo, também não me sinto triste a maior parte do tempo, mas isso não significa, de forma alguma, que esteja morno. Isto está muito longe de ser um “não sentir”. Explode dentro de mim uma intensidade que não consigo definir, mas parece algo como uma fome recém descoberta, uma necessidade que o cotidiano anterior escondia de forma tão eficaz, de pisar no chão, de prestar atenção em tudo o que acontece ao meu redor, de perceber os cheiros e cores, de descobrir o que as pessoas estão pensando, sentindo, como elas enxergam a sua própria história, como elas interpretam às limitações e sofrimentos aos quais estão tão expostas… então, é assim que estou.

Tenho me perguntado muito sobre o que as pessoas precisam para mudar. Um grande choque? A tristeza? A angústia? O amor? No fundo, sempre parece que estamos esperando que algo aconteça ao nosso redor para que dessa forma possamos mudar o que está dentro e nos incomoda. Soa como um certo comodismo.

Um dos meus namoros terminou de forma muito esquisita. Ela dizia que me amava, que éramos feitos um para o outro, mas que naquele momento eu não cabia na vida dela. Ela precisava mudar: de curso, de casa, de namorado. Foi destruidor e eu realmente não entendi o que aconteceu até pouco tempo atrás.

É que às vezes, para termos força para mexer naquilo que está dentro de nós, precisamos mudar drasticamente o que está fora. Estar longe do meu país, dos meus amigos e da minha família e de boa parte das minhas lutas e sonhos é, com certeza, uma forma de me impor uma mudança interna, cuja brisa já posso vislumbrar.

E, como tem sido a viagem até então?

Diferente do inicialmente planejado, minha estadia em Luanda (capital) foi prorrogada, e devo ficar por aqui por mais de algumas semanas. Luanda é uma cidade de múltiplas realidades. Para se ter uma idéia, pesquisando os preços com conversas (deste motorista de taxi ilegal, corporativo, secretarias, advogados, gerentes financeiros) e o preço da comida varia entre até 5 dólares (ou 500 kwanzas) nas barracas da rua, com carvão e panelas gigantes, ou acima de 20 dólares (ou 2000 kwanzas) em qualquer restaurante. É um mundo as pessoas muito pobres tentam sobreviver, e para os outros não faz muita diferença o quanto vão pagar para comer. Esta é só mais uma das ilustrações sobre as desigualdades sociais, que não deixaram de me chocar em nenhum dos 30 dias que acabo de completar por aqui.

O cotidiano tem sido, ainda, de prestar atenção. Na conversa da moça da rua, puxando papo com as pessoas que trabalham no restaurante. Conheci um estudante de engenharia, chamado Zinho: ele trabalha das 05 às 18 horas num taxi clandestino, 6 dias por semana, para conseguir pagar a faculdade e ajudar nas contas da casa da mãe, com quem mora. É impressionante essa capacidade do ser humano de lutar e fazer o que for preciso. E eu não vejo desespero em seu rosto. Digo, a gente tem crise por tanta coisa: porque pegamos trânsito, porque ela não ligou de volta. Não acredito naquela história de que “temos que agradecer: olha como tem gente pior que a gente – fique feliz” porque acho que este é um conceito extremamente pessoal e subjetivo, mas realmente repenso, repenso e repenso sobre as minhas capacidades, dessa vitimização maluca que colocamos a nós mesmos, de querermos tanto e nos dispor em geral tão pouco. Enfim, o Zinho é um cara que, além de me mostrar a cidade, as praias, os guetos do centro, as baladas, tem me dado esperanças quanto sobre as coisas em Angola.

O que antes parecia resignação, agora me parece uma preocupação imediata com a sobrevivência. Começo a entender um pouco melhor as coisas aqui. Não é que as pessoas não se importem com essa desigualdade, é só porque elas precisam sobreviver. A guerra civil não é uma realidade da qual a maior parte das pessoas vivas aqui não tenham feito parte. Quase todos os homens com mais de 30 anos serviram ao exército durante a guerra. Boa parte deles entrou com 14 anos. Eu tava vendo o Roberto Baggio perder um pênalti e o Brasil ser campeão mundial. Eles tiveram que se alistar no exército porque senão as chances de serem mortos (ou morrerem isolados) eram extremamente prováveis. Temos formas de pensar diferente com relação às instabilidades políticas, grandes mudanças, agitações. As pessoas em geral querem a vida antes da justiça. Penso que existem alguns passos que não podemos pular. Passos que são nossos, e que eu não poderia dar por eles, e nem eles poderiam dar por mim.

É curiosa essa sensação de “observação participante”. Sinto que Luanda é uma cidade onde as pessoas podem ficar todo o tempo distraídas, do seu escritório ao seu condomínio, dos seus restaurantes aos seus clubes privados. Mas pode ser o lugar em que você pode aprender um pouco mais sobre uma realidade completamente diferente da sua e admirar sorrisos dos mais bonitos com os quais já cruzou. Você pode olhar pela janela e só enxergar a paz, mas “paz sem voz não é paz, é medo”.

Temos a incrível mania de atribuir ao nosso esforço, capacidade e vocação tudo aquilo que temos de melhor e mais bonito, enquanto aquilo que nos é feio, mesquinho ou egoísta é fruto de um passado complicado, circunstâncias pessoais com as quais não tivemos maturidade suficiente para lidar ou relações familiares complexas que deixaram sequelas e cicatrizes.

É verdade que, para o bem ou para o mal, somos frutos de nossas condições objetivas que dialeticamente se contrapõem com nossa subjetiva individualidade. E é exatamente essa síntese, capaz de tantos improváveis resultados, que nos caracteriza como seres humanos únicos, e nos permite ansiar que as coisas sejam diferentes daquilo que são hoje!

Mas se já somos capazes de reivindicar tudo aquilo que achamos certo, por que será que ainda não somos capazes de enxergar que os nossos medos, inseguranças e desvios também são nossa responsabilidade? Entender e justificar é possível, sempre poderemos encontrar motivos, construir pretextos, mas a questão é até quando vamos aceitar conviver com isso? Não se trata de achar ser possível a busca pela perfeição, de querer exorcizar cada defeito. Clarice nos ensinou que cortar os próprios defeitos pode ser perigoso, já que eles também são nossa base de sustentação. Mas, mais importante do que nos aceitar como somos, é não nos deixarmos resignar com aquilo que machuca e nos afasta dos sonhos e ideais. Como diria um poeta mágico (o da música logo abaixo), uma questão de “não acomodar com o que incomoda”.

 

Caleidoscópio Cinza

Publicado: setembro 24, 2011 em Olhar para dentro, Reflexões

É que às vezes bate um vazio, e uma certa angústia com relação à condições que parecem fazer parte do que somos, e não conseguimos, não podemos mudar. Sou exigente, e em geral gosto das coisas que escolho ser, mas o que fazer com tudo aquilo que me foi dado, que é parte de mim e que, por mais que me incomode, não conseguirei ainda mudar?

Sinto que quando a mudança é em direção a algum ideal, me transborda uma energia que nem existe em mim e que torna possível ao menos tentar. Mas na hora de enfrentar os medos e fantasmas mais íntimos, ainda que haja pouco a perder, sempre me parece demais, e a coragem e disposição se perdem em devaneios escuros.

Sinto que não às vezes não consigo ser quem sou, e então chego a conclusão de que neste momento me torno alguém que não gostaria de ser. E fujo, ainda que não esteja acostumado com essa palavra, para me preservar. E fico a pensar, nesse exato instante, se não seria melhor ter ficado, me destruído, para que pudesse reconstruir? Melhor, talvez, mas não estou pronto. Por enquanto.


Desde cedo a gente aprende a lidar com o prazer. E nossa vida se torna, mais ou menos, uma busca pela realização dos desejos e pela felicidade. A dor e a angústia seriam então ruins, por representarem exatamente o oposto do prazer e da alegria.

Depois que a gente cresce um pouco, entendemos um pouco melhor a angústia. Ela nos ensina coisas muito importantes que eram até então desconhecidas. Não permite o comodismo e faz com que nos movimentemos para outros lugares. Percebemos que precisamos não só respeitar nossas vontades e sorrisos, mas também nossos medos e lágrimas.

De repente parece que as pessoas, em geral, se acostumam também a uma leveza quase tediosa. Alguns chamam isso de segurança, outros dizem que passamos a procurar a previsibilidade, um pouco mais de controle e segurança. Parece que para a maioria o porto seguro está no morno. Que a zona de conforto é não sentir demais, nem o prazer, nem a dor. Tudo o resto vira rótulo para desequilíbrio, extravagância, luxúria.

O que eu sei é que eu ainda não consegui, ou, ainda melhor, sei que isso não é para mim. Por mais que velhas feridas me impeçam de dar os saltos necessários, o medo de me machucar “é a paz que eu não quero conservar para tentar ser feliz” (como já se ouvia cantar em Minha Alma).

(e, já que a citação caiu como uma luva ao fim do post, compartilho também o clipe da música, que é um dos melhores – se não o melhor – que eu já vi).