Sobre a Rede Sustentabilidade

Publicado: fevereiro 19, 2013 em Sem-categoria

Muitos amigos e pessoas queridas manifestaram bastante empolgação com o Rede Sustentabilidade, novo partido que aglutina algumas figuras já conhecidas na política, como Marina Silva (ex PT/PV), Walter Feldman (ex PSDB), Alfredo Sirkis (ex PV), Domingos Dutra (ex PT) e, ao que tudo indica, Heloísa Helena (ex PSOL), além de empresários bastante conhecidos como Guilherme Leal (dono da Natura, e de uma fortura superior a R$ 1,5 bilhão), Maria Alice Setubal (uma das principais acionistas do Itaú, banco que lucrou R$ 13,8 bilhões em 2011 e R$ 13,5 bilhões de reais em 2012, aqueles “tais” anos da crise em que o país parou de crescer e todos se preocupavam com o que acontecia com o resto do mundo e o Brasil).

Pelo começo: é natural que nos sintamos próximos por pessoas que denunciam problemas que nos angustiam. Eu concordo com a Marina quando ela diz que este modelo de desenvolvimento não funciona: vai exaurir o nosso meio ambiente em pouco tempo. Alias, a gente fala como se isso fosse acontecer em um futuro distante, fosse um problema dos nossos filhos ou netos, mas é só pensarmos no tempo que gastamos no trânsito, na alimentação terrível que temos, na redução da diversidade e devastação dos biomas naturais. Ok. Mas, infelizmente, meu acordo com Marina Silva para por aí.

 Acho que todo mundo olha para o mundo ao redor e concorda que as coisas não estão muito bem. Achar que o mundo está errado (ou bradar isso de forma bem alta) não é suficiente para que possamos nos sentir representados. E nos momentos de crise (e como elas são frequentes no nosso capitalismo. Você lembra da crise econômica da década de 80 – a crise do petróleo? E na década de 90, os tigres asiáticos? No começo de 2000, a crise dos emergentes. E no começo de 2010, o mundo), infelizmente, às vezes costumamos prestar mais atenção no que ouvimos mais alto ao invés de avaliar, de forma analítica e ponderada, se aquele que está falando alto realmente está apontando, para além do problema, soluções com as quais concordamos. E passamos a analisar alguns pontos da Rede Sustentabilidade:

(i) Existe a proposta de submeter garantias e direitos individuais à plebiscitos populares. Ou seja, para decidir se um homem ou mulher homossexual tem direito ao casamento civil (direitos iguais ao heterossexual), submetemos a proposta à opinião de todos, e, ao verificar que a maioria deseja oprimir a minoria (as pesquisas apontam que a maior parte das pessoas ainda não são favoráveis ao casamento homossexual), ok! É o que a maioria acha, então lavamos nossas mãos. Sobre a questão do aborto? Deixemos a maioria religiosa decidir em nome de todas as mulheres que morrem todos os anos por não ter acesso a métodos mais seguros para essa intervenção A mesma coisa para a maconha. Não importa se a criminalização das drogas gera violência e o aumento do tráfico, vamos nos esquivar deste debate e assumir que o nosso papel é o de carimbar a decisão dessa maioria, ao invés de disputar, por meio dos movimentos sociais, debates, da tal “onda verde”.

(ii) “Não sou de esquerda, nem de direita”: este discurso soa muito tentador. Soa quase como “apolítico”. Acima do bem ou do mal. Não é necessário compromisso com ideologia, temos compromisso com o “melhor”. Como se existe um “melhor”, moral, e a política não fosse feita de escolhas. Como se pudéssemos transitar uma hora entre o povo, a justiça social, a distribuição de renda, e outra hora com os bancos, especuladores, bilionários. É como se fosse possível construir um mundo em que todos dessem as mãos e vivessem felizes para sempre, como se não existissem interesses distintos e conflitantes. “Somos o partido do bom senso”. Enquanto os outros brigam, eu não estou deste lado ou do outro, muito pelo contrário.

(iii) O apelo ambientalismo é uma falácia. Vamos falar muito sério: o que a Marina propõe de diferente para o meio ambiente? Ser contra o Código Florestal? O PSOL, PV e diversos outros candidatos (de esquerda, direita e centro) também foram. Para além de palavras bonitas, o que ela propõe para resgatar o meio ambiente? Ela, que foi ministra, e que tem uma enorme trajetória, não propõe nada mais do que um “pacto” de sustentabilidade verde. E de marketing verde, desculpa, mas toda embagem Tetrapark está cheia.

A pergunta que Marina Silva não responde, e nunca poderá responder enquanto em sua base política estiverem algumas das pessoas mais ricas do Brasil, é a seguinte: é possível uma agenda de desenvolvimento sustentável no Brasil sem rever o próprio capitalismo no qual o nosso país está mergulhado? Neste modelo de desenvolvimento, em que o consumo desenfreado é o motor do emprego (e para produzir e fazer as pessoas consumirem mais é necessário exaurir mais recursos de nosso mundo), em que a riqueza de uns depende, necessariamente, da exploração do trabalho de outros? É possível ser consumista e ser sustentável? É possível ser o maior acionista de uma empresa que lucra mais de R$ 13 bi sem que ninguém tenha sido explorado ou lesado, de alguma (ou muitas) forma(s)? É possível repensar as grandes cidades sem enfrentar a especulação imobiliária? Sem repensar o lucro e a exploração do trabalho alheio?

Não é. Para ser sustentável, precisamos mudar o nosso sistema econômico, e não apenas o perfume e o discurso. Terminar com uma Belo Monte não chega perto de ser suficiente. Não adianta falar que basta as empresas terem mais consciência. Reciclar seu lixo é importante, mas não é suficiente para tornar o modo de vida que levamos nas grandes metrópoles sustentável. Não nos basta mudar o discurso e continuar a essência do que temos aí. Ou lutamos por verdadeiras rupturas, ou vamos ser engolidos por um sistema econômico em que milhões morrem porque não tem acesso a um remédios patenteados, morrem de fome em um mundo que produz mais alimento do que o necessário para toda a população, ou pessoas que passam a vida inteira a trabalhar, trabalhar, trabalhar, para ter um tênis melhor, um celular melhor, um carro melhor, e uma vida vazia.

E quem não aponta o caminho da mudança está colaborando para a manutenção das injustiças que vivemos hoje. Então, ao apontar para as pessoas uma “salvação” para o injusto sistema em que vivemos, Marina Silva não está fazendo nada mais do que desejam os donos do poder (ou alguém viu algum grande ruralista reclamando da criação desse partido? Algum dono das grandes mídias? Alguma crítica da Rede Globo ou da Veja? Algum grande empresário se posicionando de forma crítica?). Distraindo a nossa angústia e tentando nos convencer que uma tinta verde pode ser capaz de resolver todos os problemas da nossa sociedade.

E o mundo não acabou!

Publicado: dezembro 21, 2012 em Sem-categoria

O mundo não acabou. Mas o meu mundo, devo dizer, está em intensa transformação: objetivos cumpridos, novos lugares, algumas antigas angústias (que continuam a me mover), novas pessoas, novas paisagens, uma vida de experiências intensas, que às vezes fazem minhas costas curvarem sob o peso do mundo, e outras vezes me deixam a flutuar em êxtase profundo.

Gosto daquela pixação: “eu não tenho medo que o mundo acabe, eu tenho medo é de que o mundo continue exatamente o mesmo”.

Acho incrível que as pessoas estejam comemorando junto das pessoas queridas, que pensem em festas, viagens, cartões de natal, comprar aquele presente que vai fazer aquela pessoa sorrir, se permitir recebê-lo também.

Mas quer saber? Não é hora apenas de penar nas coisas boas. Precisamos pensar na nossa vida de forma mais ampla, e relacionar os nossos problemas aos problemas no mundo que vivemos. Trabalhamos tanto para ficar todo mês angustiado para saber se vamos conseguir pagar as contas. Pegamos ônibus ou metrô cheio e caro todo dia (ou passamos horas de vida desperdiçada no trânsito). Temos tão pouco tempo para nos dedicarmos às pessoas que gostamos (e uma certa preguiça também – me parece que a preguiça é um terrível mal dessa época).  Tanta gente na rua passando fome, a violência que assusta a tantos, mas, quase sempre, atinge especialmente aos mais vulneráveis (as mulheres, os pobres, as vítimas de preconceito).

A gente tá insatisfeito com muita coisa, mas a maior parte das nossas metas parece ser sempre individual: “mudar de emprego para ganhar um salário melhor e comprar um carro”, “morar mais perto do trabalho”, “trabalhar menos”, “mudar para um condomínio fechado”. Enquanto fizermos isso, nos distanciaremos mais e mais da emancipação individual, que só pode ser obtivada junto da coletiva.

Então que tal nas metas deste fim de ano pensar mais em “o que eu quero para o mundo” e um pouquinho menos no que “o que eu quero para mim”?

Sobre os Guarani Kaiowá

Publicado: outubro 24, 2012 em Sem-categoria
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É importante sentir, se indignar. Sem sentimento, sem incômodo, não há movimento. Sem movimento, neste caso, teremos a morte, quer dizer, mais e mais mortes, que parecem doer mais em nossas mentes e corações quando são noticiadas, mas que não doem menos para aquele povo quando se transformam apenas em notas de rodapé dos jornais.

Depois do importante sentir, vamos nos informar. E assim saberemos contra quem estaremos lutando: não é um bandido abstrato, alguém que não tem coração. Não é sequer contra um latifundiário em especial, ou contra os grileiros.

É com o tratamento dado à terra para a nossa sociedade: um bem para se conseguir dinheiro. É o dinheiro para se conseguir (quase) qualquer uma das coisas materiais para se viver. É contra uma televisão que nos convence a consumir mais e mais. É contra um sistema econômico baseado no consumismo (quando mais você consumir, mais empregos serão gerados, a tal roda vai girar). É contra a massificação cultural, que prega a hegemonia do mundo “branco” e civilizado, contra aqueles que são diferentes: que nunca disseram que queriam ter uma vida como a nossa e, ainda assim, insistimos em lhes empurrar o que de pior existe no nosso mundo: a miséria e a exclusão social.

Então, sinta, sinta intensamente, mas mais do que sentir, mova-se! Discuta política! Cobre dos seus candidatos que se posicionem a respeito! E aí Haddad? E aí Serra? E aí Dilma?

Se integre a movimentos sociais: existem várias pessoas (muito mais qualificadas que eu) que conhecem o tema e podem dar mais informações à causa indígina (que não se restringe a este grupo que decretou seu suicídio coletivo, mas também a tantos outros que continuam e continuarão sendo mortos).
Questione o sistema jurídico! Porque o juiz disse que os índios devem sair da terra, acataremos em silêncio? A “ordem” que serve para oprimir os excluídos é legítima?

Questione o capitalismo! A propriedade privada é um valor supremo? Está acima do valor da cultura destes povos? É assim que vamos querer tratar o diferente? É assim que gostaríamos de ser tratados pelo diferente?

Mobilize-se! Assine petições, mas não só! Pesquise, estude, conheça, saia às ruas, acredite, o mundo parece parado, mas não está! Por todos os cantos as inquietações surgem das mais diferentes formas. Integre-se! Seu barulho silencioso não mudará as coisas, mas suas ações, somadas às ações de todos os outros, essas podem mudar tudo!

Abaixo, reproduzo um comentário sobre o tema de Spency Pimentel:

Para quem está conhecendo agora a a situação kaiowá e guarani, por conta da carta do pessoal de Pyelito Kue, e tem interesse em ajudar, seguem alguns links, abaixo. Creio que, neste momento, é importante ter em mente duas coisas: 1) Pyelito é um grupo guarani-kaiowá, dentre mais de 60 – há 30 terras indígenas e mais de 30 acampamentos em beiras de estrada e fazendas, e cada um desses lugares tem suas próprias lideranças, elas se reúnem todas na grande assembleia, a Aty Guasu, que existe, como organização de luta, desde os anos 80; 2) a luta em MS já vem de muito tempo, e vai durar muito tempo ainda, porque o processo de regularização das terras é extremamente complicado – portanto, para quem estiver sensibilizado, é importante construir o entendimento de que é preciso persistência e paciência, e que as coisas não vão se resolver da noite para o dia. Oxalá seja evitado o despejo do pessoal de Pyelito! Mas, quando isso acontecer, não deixem de prestar à situação lá! Para quem acompanha a luta guarani-kaiowá há mais tempo, episódios como esse são quase rotineiros – a cada 3 meses aparece uma ordem de despejo ou uma nova ocupação de terras em que ocorrem conflitos…

Agora, os links:

Esta é uma contextualização sobre a luta guarani-kaiowá, que escrevi pra Carta na Escola, no início do ano: http://www.cartacapital.com.br/carta-na-escola/o-desafio-da-paz/

Este é um vídeo que o Cristiano Navarro e parceiros fizeram, sobre a expansão da cana lá na região (é um vídeo mais jornalístico): http://vimeo.com/32502931

Este nosso vídeo é todo falado em guarani, com legendas, são os xamãs explicando a relação entre a cosmologia kaiowá-guarani e a luta pela terra: http://vimeo.com/34768557

O desafio da paz (Cobertura geral sobre o conflito)| Carta Capital
http://www.cartacapital.com.br

Eleições em Angola

Publicado: agosto 31, 2012 em Angola, Política
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Hoje temos a primeira eleição para presidente de Angola (a eleição anterior, de 1992, não foi concluída – o país permaneceu em guerra civil de 1975 a 2002). O responsável pelo marketing do MPLA (partido de origem socialista, e que está no poder desde a independência de Angola e início da guerra civil) é o João Santana, um dos principais marqueteiros do PT. O lema do partido é “crescer mais e distribuir melhor”.

Angola, segundo algumas previsões, pode se tornar o país com o maior PIB da África até 2020. É também um dos países mais desiguais, o lugar onde eu mais vi carros de luxo em toda a minha vida, e um lugar onde 95% da cidade (em Cacuso) só tem acesso à água por meio de poços artesianos, abertos à população apenas em algumas horas do dia, e a energia elétrica é em sua maioria proveniente de geradores movidos à gasolina (para quem pode pagar).

Obras, obras por todos os lados. Em Luanda, não ando mais do que 200 metros sem ver algum grande projeto sendo erguido. Bairros inteiros construídos a partir do nada – e boa parte deles abandonados, porque os apartamentos “populares” custam de 95 a 180 mil dólares. Mas a extrema quantidade de apartamentos vazios não impede a especulação imobiliária de lucrar muito: o aluguel de um apartamento simples de 3 quartos, no bairro de Talatona (em Luanda) custa no mínimo 5 mil dólares (10 mil reais).

Muitas empresas estão se instalando aqui. A carga fiscal é enorme, mas existem incentivos fiscais agressivos para empresas “estratégicas”, especialmente àquelas que tenham sócios locais “estratégicos”. O empresariado Angolano é composto, especialmente, por pessoas ligadas direta ou indiretamente à política e ao exército. Os generais tem ampla influência não só nas questões políticas, mas também em questões econômicas.

A maior parte da população é de fato favorável ao MPLA. Mas mesmo entre os adeptos do partido, muitos disseram ter uma sensação de necessidade de alternância ao poder. Poucos declaram abertamente, mas muitos militantes do partido estão dispostos a votar no candidato da oposição para haja uma maior pluralidade na câmara, e para alternância do presidente. Não consegui discernir, nas propagandas e nas notícias, uma diferenciação forte entre as ideologias (pesquisando os documentos históricos dos diversos partidos as diferenças ideológicas estão muito claras – o MPLA tem forte apelo popular, Angola chegou a experimentar um início de experiência socialista, e foi amplamente apoiado por Cuba, e a UNITA, de origem mais conservadora, era apoiada pela África do Sul, e, indiretamente, pelos EUA), mas todas as propostas de governo são unânimes em crescimento e distribuição de renda, sem especificar de forma clara quais serão os métodos utilizados.

É fácil ter uma visão crítica do processo eleitoral e da democracia angolana. Parece ponto comum que é extremamente injusto o governo fazer 2 inaugurações de grandes obras por dia nas semanas que antecedem as eleições,  que o canal público de televisão não deveria passar 18 horas por dia mostrando as grandes obras do governo e colhendo depoimentos do quão sua vida está melhorando, que sejam entregues nas campanhas cestas básicas para o povo pelos partidos diversos, dentre outras coisas. É fácil criticarmos, mas é também por demais cômodo. Este é um país que está passando pela segunda eleição na sua história (quando o primeiro processo eleitoral foi interrompido pela retomada da guerra civil), que era uma colônia de Portugal (ou seja, as pessoas sequer tinham direitos políticos ou sociais, tudo – alias, o pouco que era – soava como favor da classe dominadora). Longe de ser complacente com os absurdos, precisamos entender cada lugar a partir do seu próprio contexto, para não tentar transportar respostas e soluções que funcionam em outros espaços, mas que poderiam ser temerárias se colocadas em um lugar com circunstâncias tão diferentes.

Fico pensando que, de longe, a sociedade ocidental valoriza muito a democracia de forma. Uma mania de achar que um processo eleitoral “adequado” dará vazão às necessidades das pessoas, e o resultado, qualquer que for, será justo e correto. Talvez seja o menos injusto possível, mas isto está longe, muito muito longe de ser suficiente. A participação popular não deve se restringir ao voto. Quais ferramentas nos são dadas para votar? O quanto de informação, o quanto de educação política, o quanto de instrumento de participação popular (para muito além do voto)?

(…) É como estar do lado de cá, mas saber que do lado de lá sempre também terá um pedaço de mim – e é como se um pedaço do que eu quero ser, desse eu que ainda não conseguiu, já tivesse se realizado naquela pessoa, enfrentado os demônios dos quais ainda me escondo e, vez por outra, pudesse até derrotá-los, e se isso não me faz tão forte quanto eu precisaria me tornar para superá-los, certamente me faz ter esperança de que um dia poderei sê-lo (…)

(…) e é só uma forma meio maluca de lidar com a vida, entregando demais para aquilo pelo que me sinto responsável, procurando menos do que gostaria aquilo que de fato desejo (…)

(…) Mas acima de tudo, é uma forma de romper ciclos, terminar rascunhos e poder lidar com tanta coisa que vive e cresce dentro de mim, mas que não encontra espaço para se manifestar na loucura do concreto paulistano – nas correrias, militâncias, festas, trabalho, família, enfim. Tudo passa tão depressa em São Paulo (e o tempo se arrasta tão absoluto e calmo aqui em Angola)  (…)

(…) às vezes me sinto só – às vezes feliz, às vezes miseravelmente só – e aprendendo a viver com isso, sem uma casa sempre cheia de familiares ou amigos e, principalmente, respirando um lugar novo, uma cultura nova, vivendo mais próximo daquele mundo miserável que eu sempre soube ser real, mas que as comodidades da minha cidade natal podiam facilmente transpor e iludir (a miséria está por todos os cantos da minha metrópole natal, mas como é fácil esquecer dela quando se chega no bar e começamos a beber nossa cerveja junto de pessoas queridas e especiais) (…)

(…) e estou aqui! Penso em você muitas vezes, e acho que sofremos desse problema, de nos falar tão pouco que um email de “como estão as coisas aí” quase não faz sentido, e também dessa curiosidade quase existencial que eu sinto com relação a você, de todo o carinho – de encontro de sangue, que é nosso, que é vermelho não pela fisiologia, mas pela história comum, semente da qual somos frutos – que sinto receber, mas não sei transmitir (…)

Frio (ou) A culpa é de quem?

Publicado: julho 17, 2012 em Política, Reflexões

Sabe quando você pensa “nossa, que noite fria ontem”, “que gostoso tomar um chocolate quente”, “como o vinho cai bem em noites como essa?”.

Pense também em “o que será que acontece tom todas as pessoas que não tem casa, ou tem moradia sem nenhuma dignidade”, “será que é socialmente justo que a especulação imobiliária faça com que tenhamos mais imóveis do que gente para morar em São Paulo, e mesmo assim as pessoas tenham que morar nas ruas” ou então “será que São Paulo – ou o Brasil (ou Angola) – trata com dignidade aqueles que não tem dinheiro?”

E, mais do que pensar sobre o quão injusta são as coisas, pensemos, acima de tudo, sobre o que nós fazemos para mudar tudo isso. Ioga para encontrar a paz interior é importante, mas não é tudo. Doar agasalhos nas campanhas de inverno é muito pouco.

Ao votar nos mesmos candidatos e partidos que sempre fizemos, estamos corroborando com todas essas injustiças. Ao reclamar que as manifestações atrapalham o trânsito, estamos dizendo que cagamos e andamos para os absurdos do mundo. Ao reclamar da greve dos metroviários, estamos dizendo que nos importamos muito pouco com as condições de trabalho do outro. 

Mas ao não reclamar de nada, mas tão pouco se esforçar para estudar, entender porque as coisas estão dessa maneira, pensar em como podemos transformá-las, e, principalmente, nos dispor a lutar pelas transformações que acreditamos, estamos fazendo com que o mundo seja exatamente aquele que é. 

Aquele mundo que é assim, é absurdo, sem que sintamos a mínima culpa pelo que acontece aos outros ao nosso redor. A mínima responsabilidade pelas condições miseráveis às quais o ser humano é diariamente submetido. Saramago disse que, se tens olho, vê! e se podes ver, repara. Acho que reparar é sentir, e sentir deveria impulsionar, necessariamente, o agir.

(e “quem quer manter a ordem? quem quer criar desordem?”)

Como você está?

Publicado: junho 15, 2012 em Angola, Reflexões

Será que em determinado momento da vida nos distraímos pelo nosso cotidiano de obrigações, por já ter tantas expectativas quanto aos outros (e tanto trabalho para atender às expectativas do outro), compromissos profissionais, estudantis e amorosos, que já nos sentimos tão cheios de nós mesmos que não existe espaço para o novo? Fico prestando atenção para saber se ainda estou aberto, para pensar (e repensar) as minhas convicções filosóficas e políticas, para descobrir (e aprofundar) as pessoas que me parecem interessantes e especiais, para não me distrair com relação aos bons amigos que a vida já me aproximou, para me permitir sentir paixões sem medos, expectativas ou ciúmes. Se me entender hoje parece mais fácil do que já foi no meu passado, me transformar tem sido cada vez mais difícil, e necessitado mudanças abruptas no meu modo de viver, e acredito que este é um dos motivos pelos quais estou aqui.

E aí me perguntam: “como você vai?”

Não é estranho que possamos descrever como nos sentimos com um “tudo bem”, “tudo indo” (uma forma educada de dizer “tudo mal”) ou “mais ou menos” (uma forma educada de dizer “tudo muito mal”)?

Os dias tem sido de sentimentos intensos. As novidades me atraem, e eu sinto um prazer enorme em descobrir mais sobre outras culturas. Às vezes me pego prestando atenção nas conversas ao meu redor. As pessoas em Angola falam de forma tão enfática! Não existe pretensa neutralidade. Elas parecem ou muito inconformadas, ou muito felizes, ou muito bravas, ou muito alegres. Sempre muito.

Mas a miséria me consome. E ela está presente todos os dias, na frente da minha casa, na estrada, nas pessoas procurando emprego. As casas improvisadas de barro e madeira, a ausência de qualquer saneamento básico, as crianças brincando no meio do lixo, pedindo comida na saída do supermercado. Até o que eu não vejo machuca: não vi em Cacuso um idoso sequer!

O que eu sinto, enfim, não cabe em uma resposta retórica de uma linha. Sinto que não sentia o tamanho do mundo como agora, porque mesmo sabendo de toda essa diversidade (e de muitas outras), tem coisas que a gente só sente quando pode entrar em contato, tocar, sentir o cheiro, marcar a retina.

E se não me sinto feliz a maior parte do tempo, também não me sinto triste a maior parte do tempo, mas isso não significa, de forma alguma, que esteja morno. Isto está muito longe de ser um “não sentir”. Explode dentro de mim uma intensidade que não consigo definir, mas parece algo como uma fome recém descoberta, uma necessidade que o cotidiano anterior escondia de forma tão eficaz, de pisar no chão, de prestar atenção em tudo o que acontece ao meu redor, de perceber os cheiros e cores, de descobrir o que as pessoas estão pensando, sentindo, como elas enxergam a sua própria história, como elas interpretam às limitações e sofrimentos aos quais estão tão expostas… então, é assim que estou.